terça-feira, 8 de março de 2011

Sete poemas de W. B. Yeats

William Butler Yeats (1865-1939) foi daqueles raros poetas que, não satisfeitos em fechar uma era e iniciar outra - no que dominou dois estilos de poesia tanto quanto díspares -, emergiu com voz própria, a maior do século XX na língua inglesa segundo Haroldo Florescência.

Quando jovem, ole Billyum crammed with toil no que aprendeu a versificar com os vitorianos tardios (William Morris), o pré-Rafaelitismo e os poetas da décadence, a 'geração trágica & doentia' dos poemas de salão, do esmero formal e da boemia; os simbolistas vertidos em inglês por Arthur Symons em The Symbolist Movement, aquele mesmo livro que apresentou Jules Laforgue a T. S. Eliot. Frequentou, com Symons, o Rhymer's Club londrino: formou-se, embora irlandês, mediante os escolhos bretões. Tematicamente, influenciaram-no a mitologia nórdica-celta, que viria a se transformar numa espécie de patriotismo após a revolução de 1911; o romantismo inglês, em especial Shelley e Blake; uma acepção bastante pessoal do platonismo; e, tardo, a teologia de Swedenborg e a filosofia historista de Vico. Porém, acima de qualquer Irlanda ou tradição, alheio a qualquer promoção pessoal, Yeats preocupava-se com a poesia.

Sua produção de juventude, da qual o épico The wanderings of Oisin é o primeiro livro, contempla personagens míticos. O herói Cuchulain, a condessa Cathleen-ni-Houlíhan, Aengus, Oisin o velejador, estão eivados nas paisagens naturais do condado de Sligo, onde o poeta passou sua infância. Utilizando elementos lendários, Yeats realiza tarefa dúplice, a de animar uma identidade notavelmente irlandesa ao passo que afirma a 'velha supremacia' da imaginação frente à realidade prosaica. O poeta era um idealista: costumava nomear-se o 'último romântico'.

Embora tenha publicado primeiramente um epílio, e eles composto noutros momentos de sua vida, será como Crossways (1889), prima coleção de versos líricos, que firmará seu nome na arte poética. Confundem-se estes versos lustrados com o movimento, nos fins do séc.XIX, do que se convencionou a chamar Crepúsculo Celta (Celtic Twilight) ao ressurgir o interesse pela história & mitologia irlandesa, tangida por linhas nacionalistas: fortalecer a cultura local através da produção de uma poesia 'própria', livre dos ditames da metrópole. Yeats e Lady Gregory estão no fronte deste movimento, em grande parte contínuo do revival britânico da literatura anglo-saxã em décadas anteriores - ambíguo, não há dúvidas. A influência da tradição britânica e a ânsia em criar algo notavelmente irlandês, o embate entre imaginação e realidade, encarnam dois dilemas entre si inseparáveis no jovem Yeats: mad Ireland hurt him into Poetry. Este movimento de 'nacionalização/internacionalização' da Irlanda encontra expressão noutros escritores, de antes e durante, tal J. M. Synge e The playboy of the western world; e cristalizou-se naquela obra que fixou a insula erigena no mapa da literatura, a mais cosmopolita e provincial de todas, a justa representante máxima do modernismus: falo do Ulisses.
A citação de Joyce não é mero pedantismo. O poema que se segue, desta primeira fase visionária e idealista, 'decadente' do autor, é aquele recitado, no Retrato do artista quando jovem, por Stephen Dedalus ao leito de morte de sua mãe.

QUEM VAI COM FERGO? (1893)

Quem conduz com Fergo agora,

E pinça a alfombra de úmbreos troncos,
E dança sobre areias alvas?
Desfranze o rosto, jovenzinho,
E lentos olhos, ninfa, os alça,
E aquietas terna e não mais temas.

E não mais fujas nem aquietas
O acro lampejo dos amantes;
Pois conduz Fergo em áureas rodas,
E reina todos troncos úmbreos,
E o calmo seio do mar fosco,
E os andarilhos astros todos.

*

WHO GOES WITH FERGUS? (1893)

Who will drive with Fergus now,
And pierce the deep wood's woven shade,
And dance upon the level shore?
Young man, lift up your russet brow,
And lift your tender eyelids, maid,
And brood on hopes and fear no more.

And no more turn aside and brood
Upon love's bitter mystery;
For Fergus rules the brazen cars,
And rules the shadows of the wood,
And the white breast of the dim sea,
And all dishevelled wandering stars.

Sugestões do ato sexual são incorporados através de movimentos sonoro-imagéticos em versos cujo ritmo iâmbico, assaz sensível em vogais ora graves ora agudas, contribuem ao encanto (artificiosamente) simples engendrado pelo poema. O ritmo poético, definiu-o Yeats em The symbolism of poetry (1900); espécie de transe onde a monotonia do metro regular rompia-se em sílabas fortes, vogais inusitadas, fazendo do leitor hipnotizado e desperto ao mesmo tempo, como se este permanecesse num eterno estado de vigília.

O jovem Yeats encontra maturidade no livro The rose, de 1893. Nele foram publicados, a parte do poema acima, a releitura de Ronsard em When you are old e o bucólico The lake isle of Innisfree ('The only poem of mine which is widely known', diz ele numa gravação duas décadas depois). Sua produção posterior, The wind among the reeds (1899), continua a linha lírico-mitológica em The hosting of the Sidhe e Song of the wandering Aengus, entretanto relampeia traços de experimentação na prosódia, ao que a voz do poeta ganha força nas rimas toantes do soneto He remembers forgotten beauty e no tour-de-force que é o aparentemente singelo He wishes for the cloths of heaven.

O BANDEAR DOS SIDHE. (1899)

O bando corre por Knockarea
E sobre a tumba de Clooth-na-Bare;
Caoilte agita sua crina em brasa
E Niahm chamando
Acá, venha acá:
Teus sonhos mortais os deixa já.
Os ventos sustam, as folhas dançam,
O rosto é pálido, os cachos lançam,
A fronte pesa, os olhos esplendem,
Os braços rugem, os lábios fremem;
E se algum fitar tropel avante,
Ficamos entre ele e o feito de seu punho,
Ficamos entre ele e o pulso de seu peito,
A tropa por noite e dia errante,
E donde há maior impulso ou feito?
Caoilte agita sua crina em brasa
E Niahm chamando
Acá, venha acá.

*

THE HOSTING OF THE SIDHE. (1899)

The host is riding from Knocknarea
And over the grave of Clooth-na-Bare;
Caoilte tossing his burning hair,
And Niamh calling
Away, come away:
Empty your heart of its mortal dream.
The winds awaken, the leaves whirl round,
Our cheeks are pale, our hair is unbound,
Our breasts are heaving, our eyes are agleam,
Our arms are waving, our lips are apart;
And if any gaze on our rushing band,
We come between him and the deed of his hand,
We come between him and the hope of his heart.
The host is rushing 'twixt night and day,
And where is there hope or deed as fair?
Caoilte tossing his burning hair,
And Niamh calling
Away, come away.

Segundo o mito, os Sidhe (Aos Sí) são seres semelhantes a fadas - furentes e perigosas, como sói as lendas gaélicas. Habitantes das campinas, a eles são vinculadas diversas espécies: os leprechauns, a banshee, e demais espíritos.

Virado o século, ameaçara Yeats o destino de tantos poetas de sua geração, o de tornar-se relíquia prisca, autor de mero 'interesse temporário', como hoje o é John Masefield. A capacidade de se adaptar e reinventar-se explica a força de Yeats como poeta ao longo de cinquenta anos ativos. Seu ânimo juvenil adquire novos tons ao longo de sua obra, porém nunca é absolutamente abandonado. Abandonam-se não as máscaras mitológicas ou o gosto pelo símbolo, tampouco o combate (Yeats definia a poesia como um 'embate consigo mesmo'), ou a construção imagética em símbolos; abandona-se o lirismo qual Wordsworth, 'carente de coisas longínquas'. Dispõe-se Billyum a extirpar os ornamentos e abstrações de sua poesia.

De fato, o embate entre imaginação e realidade apresenta-se dantes, em The Stolen Child por ex. Daí que a virada trouxe a Yeats aquele tipo de ranço do velho século; dada a representação palpável do entre-séculos na morte da gordota Vitória em 1901, fazia-se imperativo transmudar-se. Dos tumultos entre Inglaterra e Irlanda, da incongruência entre seu ideal de mundo e o sensível, do bom-senso em reconhecer que sua versificação primeira havia se esgotado, e do contato com os modernistas aproximam o poeta da realidade político-social: avivam nele o gosto pelo experimentalismo, pela linguagem de registro popular e irônico. No modernismo, o poeta encontrará a superação do ditame Inglaterra/Irlanda, emergindo com voz unívoca: embora sua poesia seja notadamente irlandesa, de uma maneira que a de Wilde e Shaw não era, vai além disso; sintetiza e sedimenta toda tradição anglófona precedente, e abre portas aos poets to come. Pai e Filho do Modernismo, Yeats flertará com o verso livre; escreverá peças noh (At the Hawk's Well); criará prosódia própria, semelhante ao sprung rhythm de G. M. Hopkins.
O próprio poeta assinalou este rompimento em diversos momentos. Menciono A coat, no qual o afirma haver 'maior proeza em andar despido'. A coat foi publicado em Responsibilities (1914) - obra máxima desta segunda fase -, onde também encontramos seus famosos versos do September 1913 ('Romantic Ireland's dead and gone, / it's with O'Leary in the grave') e as Closing rhymes. Distanciando-se do idealismo efusivo, Yeats aproxima sua imaginação criativa do real - dos problemas sociais de seu tempo - e também das formas elementares, despojadas da pompa parnasiana. Outras são agora suas fontes de inspiração. Entretanto, seu versejar torna-se mais artificioso, próximo àquele 'Alto Modernismo', ou 'modernismo reacionário'. segundo o outro. No combate à alienação do beletrismo, reafirma-se o poder consciente da imaginação e a figura do poeta marginalizado, encarnando velhos valores confrontados com a 'degeneração' da cultura. Terceiro ditame em sua vida e obra, cá no plano político, endurece numa posição aristocrática e pessimista do mundo. Yeats enxerga apenas duas situações nas quais as artes poderiam florescer: uma tradição de mecenato onde duques cultivavam 'gênios', como no Renascimento, e como concluiria também Ezra Pound; ou numa cultura não-materialista, rural, dos bardos criando 'belas histórias e lendas, pois nada têm a perder'. O perigo do escapismo reaperece; o embate imaginação e realidade adquire novos tons, e permanecerá, como maré e ressaca, por toda obra de Yeats.
Reflexão em tempos da Guerra, o poema abaixo fora escrito para Lady Gregory, em homenagem a seu filho, tué par l'ennemi.

UM AVIADOR IRLANDÊS PREVÊ SUA MORTE. (1918)

Encontrarei meu fim no meio
Das nuvens de algum céu sobejo,
Os que combato, eu não odeio,
Também não amo os que protejo;
Kiltartan Cross é meu país,
Seus pobres são a minha gente,
Nada a fará mais infeliz
Do que já era, ou mais contente.
Não é por lei ou por dever,
Turba ou políticos, que luto,
Mas pelo afã de me entreter,
A sós, nas nuvens em tumulto.
Tudo na mente foi pesado:
Nada que espere ou que recorde
Vale-me a pena comparado
Com esta vida ou esta morte.

[In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia, São Paulo: Imago, 1998]

*

AN IRISHMAN FORESEES HIS DEATH. (1918)

I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan's poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.


Yeats nunca foi um homem do povo. Enquanto fosse, no dizer de Edward Said, um poeta da "descolonização", defensor dos direitos de livre pensar e livre dizer, da liberdade de expressão na arte, da soberania dos povos, do direito de trabalho das mulheres e da livre opção sexual; condenava a violência como ferramenta de mudança, e acreditava que o popular não teria capacidade para ser artista: crítico da democracia como muitos intelectuais de sua época, simpatizante do fascismo, Yeats sonhava com uma hierarquia semelhante ao cavalheirismo vitoriano, uma espécie de República platônica onde os valores seriam salvaguardados pelos intelectuais e "os melhores" governariam. Era um homem muito parecido com John Milton: o radical puritano que lamenta jogar pérolas aos porcos. Aristocrata e misantropo, radical nas escolhas individuais mas titubeante quanto a participação social. Incorreu no velho erro de inúmeros pensadores: o de considerar o indivíduo fraco, incapaz de decidir-se por si mesmo, carente de um 'guia' ou 'profeta', como vimos nos ismos vintecentistas, e como ainda vemos hoje nos bastiões universitários.

Antes de Responsibilities, publicara In the Seven Woods (1903) no qual já assinalava o desvio de seu olhar poético, seja na simplicidade da capa-azul do livro, repudiante dos embróglios dourados dos tomos decadentistas, às linhas de The folly of being comforted: nestas, a imagem que o poeta tem de sua amada é desmascarada pela realidade palpável do envelhecimento, à conclusão semelhante ao Eclesiastes - 'tudo é vaidade'; mais, em The Green Helmet and other poems (1910) está o elíptico soneto The fascination of what's difficult. Menos utópico, mais melancólico, embora emanando a 'estranha felicidade', tragic joy, da qual certa vez falou Yves Bonnefoy sobre o poeta.
Sem titular comparações sórdidas de psicobiografia, suas constantes desilusões com a ativista irlandesa Maud Gonne são elemento importante na análise de sua obra e foram responsáveis por magníficos poemas de remorso escritos em nosso magro século. Desta musa inspiradora/maledicente segue o poema abaixo, publicado em The Green Helmet:

SEM SEGUNDA TRÓIA. (1916)

Por que culpá-la por encher minha existência
De miséria e, mais tarde, enquanto a ação expande,
Aos ignorantes ensinar a violência,
Ou atirar rua pequena contra grande,
Mesmo sem a coragem que o anelar reclama?
Como seria tranquila, com aquela mente
Que a nobreza moldou singela como a flama?
Ou com o encanto do arco retesado, um ente
Não natural em nosso mundo, por seu jeito
Muito severo e sempre altivo e singular?
Ora, sendo como é, que mais teria feito?
Havia nova Tróia para ela queimar?

[In: VIZIOLI, Paulo (trad.). Poemas de W. B. Yeats, São Paulo: Companhia das Letras, 1992]

*

NO SECOND TROY. (1916)

Why should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done being what she is?
Was there another Troy for her to burn?


Poemas nos quais o verso miltoniano se quebra; ou melhor, solta-se Cabe aqui traçar paralelo com dois autores: um em nossa língua, outro norte-americano. A quem ainda não o conhece, comparar Yeats, em sua trajetória e ânimo, a nosso poeta menor, Manuel Bandeira, ilumina: ambos foram 'pontes' entre a poesia do mauvais siècle e do bright new century; além, emergiram como vozes individuais impassíveis de serem presas aos cadernos escolares. Ambos foram, em suas respectivas línguas, os maiores poetas líricos de seu tempo. Outro paralelo interessante, este feito pelo crítico canadense Hugh Kenner, é com Henry James, a ponte entre o século XIX e o XX, o primeiro a intuir o (new) sense of one's own age naquele fatídico jogo de futebol americano. James era, segundo Pound, aquele que 'morto, não há mais a quem perguntar sobre nada'. Yeats também o foi na poesia: Pound mudou-se para Londres justamente por considerar Billyum o 'poeta que mais entende sobre o verso' àqueles dias.
Um outro poema, publicado em The wild swans at Coole (1919) e revisado em 1929, embora mantenha a métrica formal, investe contra idéias estabelecidas em sua disposição estranha de sílabas e em conteúdo:

OS ACADÊMICOS (1929 ver.)

Péla-cabeças, ciosos do pecado,
Doutos, vetustos, pélas admirados,
Editam e analisam verso-a-verso
Que outrora jovens em divãs largados
Rimaram em paixão e tibiez
À orelhinha ignorante da beleza.

Agitam-se e engasgam-se com tinta;
Arrastam o carpete nos sapatos;
Assumem o que todos outros pensam;
Afastam quem não têm averiguado;
Que diriam, a torto e a direito,
Se Catulo rebolasse desse jeito?

*

THE SCHOLARS (1929 ver.)

Bald heads, forgetful of their sins,
Old, learned, respectable bald heads
Edit and annotate the lines
That young men, tossing on their beds,
Rhymed out in love's despair
To flatter beauty's ignorant ear.

All shuffle there, all cough in ink;
All wear the carpet with their shoes;
All think what other people think;
All know the man their neighbour knows.
Lord, what would they say
Did their Catullus walk that way?

Investida quasi-poundiana contra o mundo acadêmico.

Na fase final da poesia yeatsiana, novos contornos tangem aquele platonismo reativo ao mundo das idéias. Mergulha o poeta numa mística visionária e espiritual complexa, calcada em Blake, Swedenborg e no historismo de Vico. Há muito Yeats flertara com ocultismos afins; o poeta participara durante longo tempo da Ordem Hermética do Alvorecer Dourado; realizava seções mediúnicas com sua esposa, George. Interessou-se pela escrita automática, comunicação com o Tártaro ao intuir do poeta. Para a compreensão deste período, refiro à obra do próprio Yeats, A vision (1925; 1937), onde o autor delimita sua filosofia do tempo transcendental e sua relação com a história mundana (os 'vórtices') e, no meio, o indivíduo. Não se deve entender que esta guinada ao misticismo retoma o idealismo juvenil do poeta: maduro, Yeats concilia-se com as turbulências políticas de sua época, no belíssimo Easter, 1916 (a terrible beauty is born). Ademais, através da dialética estético-metafísica delineada em A vision, Yeats tentará unir o ideal do real num movimento incessante, cá o imóvel ponto do mundo que gira no qual dança Michael Robartes. Projeto este que domina sua produção final, mas que, problematizado, não apela a conclusões fáceis. O sensível ainda discorda do ideal em termos. Tornam-se temas preponderantes desta terceira e última fase o tempo e a mortalidade. Poemas tornam-se mais herméticos.

A SEGUNDA VINDA. (1919)

Rodando em giro cada vez mais largo,
O falcão não escuta ao falcoeiro;
Tudo esboroa; o centro não segura;
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Maré escura de sangue avança e afoga
Os ritos da inocência em toda parte;
Os melhores vacilam, e os piores
Andam cheios de irada intensidade.

Aí vem por certo uma revelação.
Por certo próxima é a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Digo essas palavras,
E do
Spiritus Mundi vasta imagem
Turba-me a vista: ao longe, no deserto,
Um corpo de leão com rosto de homem,
O olhar vazio e duro como o sol,
As lerdas coxas move, enquanto em torno
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Retorna a escuridão; mas ora eu sei
Que a vinte séculos de sono pétreo
Vexou o pesadelo de um bercinho;
E que rude animal, chegado o tempo,
Arrasta-se a Belém para nascer?

[In: VIZIOLI, Paulo (trad.). Poemas de W. B. Yeats, São Paulo: Companhia das Letras, 1992]

*

THE SECOND COMING. (1919)

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of
Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?


Alguns críticos tiveram a pachorra de definir estes anos finais como 'prosaicos'. Erro: neste período - pós-'20s - encontramos os versos mais memoráveis do autor em Sailing to Byzantium, Among school children, Two songs for a play, A dialogue between self and soul. Pois diferente de muitos poetas que definham na velhice (a Yeats, perigosamente Wordsworth), a produção do irlandês em seus anos finais ainda impressiona. Torna-se o poeta polêmico, virulento, abandona as papas na língua. Faz parte das duas décadas derradeiras os livros Michael Robartes and the dancer (1921), The tower (1928) e The winding stair and other poems (1933). No término de suas publicações em vida estão os New Poems (1937) com Lapis Lazuli e o irônico What then?.

O próprio poeta empreendeu uma revisão de sua obra em diversas biografias, e no poema tardio The circus animals' desertion, destaque de sua última coleção de versos líricos, o póstumo Last poems (1939) com Long-legged fly, onde o poeta detém três figuras histórico-mitológicas - César, Helena, Michelangelo - em momentos de decisão pessoal que acabaram por mudar os rumos da história, numa reflexão semelhante às de Kaváfis.
Concilia-se o poeta com a própria morte em Cuchulain Comforted - composto dias antes desta o visitar.

CUCHULAIN CONSOLADO. (1939)

Um homem tinha seis golpes mortais, um homem
Violento e meritório vagava entre os mortos;
Olhos despontam dos arbustos, logo somem.

Sudários uns que sussurravam ombro a ombro
Vieram e sumiram. Sobre sangue e golpes
Como se meditasse, se escorou num tronco.

Um Sudário cujo semblante era notório
Veio mediante os canoros seres, cedendo
Um feixe de linho. E os Sudários, pouco a pouco,

Ante o homem inofenso iam bruxuleando.
E o Sudário-linheiro aferiu sem demora:
'Tua vida será tão mais doce se fiando

'Um sudário seguires nossa velha norma;
Somente tanto e pelo pouco que sabemos
O agito daqueles braços nos atemora.'

'No olho d'agulha erramos; tudo que fazemos
Fazemos em conjunto.' Dito e feito, o manto
empunhou o mais próximo e trouxe o fiamento.

Agora cantaremos, e o melhor cantemos,
Porém antes lhe revelamos nosso ganho:
Covardes todos nós, talhados pelo sangue,

Ou dele expulsos, reles a morrer de pranto.'
Cantaram, mas não era humano o tom e o coro,
Contanto fora tudo feito como dantes;

Cingiram suas gargantas e tinham-nas canoras.

*

CUCHULAIN COMFORTED. (1939)

A man that had six mortal wounds, a man
Violent and famous, strode among the dead;
Eyes stared out of the branches and were gone.

Then certain Shrouds that muttered head to head
Came and were gone. He leant upon a tree
As though to meditate on wounds and blood.

A Shroud that seemed to have authority
Among those bird-like things came, and let fall
A bundle of linen. Shrouds by two and three

Came creeping up because the man was still.
And thereupon that linen-carrier said:
'Your life can grow much sweeter if you will

'Obey our ancient rule and make a shroud;
Mainly because of what we only know
The rattle of those arms makes us afraid.

'We thread the needles' eyes, and all we do
All must together do.' That done, the man
Took up the nearest and began to sew.

'Now must we sing and sing the best we can,
But first you must be told our character:
Convicted cowards all, by kindred slain

'Or driven from home and left to die in fear.'
They sang, but had nor human tunes nor words,
Though all was done in common as before;

They had changed their throats and had the throats of birds.

* * * * *

A melhor edição atual da poesia de Yeats é a da Scribner anotada por Richard J. Finneran, disponível em capa-dura (& mais completa) e brochura. Toda a obra de Yeats, peças inclusas, vem sendo publicada pela mesma editora já há algum tempo; resta apenas a revisão de A vision, de 1937, completando os quatorze volumes. Como introdução, o estudante encontra ótimo material na edição da Major Works (ed. Edward Larrissy) da Oxford. Àqueles que pretendem iniciar um estudo sério do poeta, recomendo a edição crítica da Norton (ed. James Pethica), com textos de Eliot, Pound, Perloff, Heaney &tc. Em nosso idioma luso, a melhor tradução do poeta é aquela de Paulo Vizioli para a Companhia das Letras, hoje esgotada, encontrado com facilidade em sebos. Augusto de Campos transcriou outro punhado na Poesia da recusa; Péricles Eugênio da Silva Ramos também em Poemas, pela Art editora; Nelson Ascher selecionou alguns no indispensável Poesia alheia; Ivo Barroso um resto em O torso e o gato. Para o francês, ainda famosa é a transcriação de Yves Bonnefoy; mais recentes são as de Jean Briat.

A lápide de Yeats está em Drumcliffe, condado de Sligo, Irlanda; onde an ancestor was rector there / long years ago, a church stands near, / by the road an ancient cross. Lá, under Ben Bulben, quereria ele ser enterrado, como se lê no epitáfio epigramático, conclusão do poema homônimo:

Cast a cold eye,
On life, on death,
Horseman, pass by!


Morreu em Menton, França, em 1939; ao tempo da invasão nazista, ordenou-se que fosse retirado e jogado em vala comum. Após a Guerra e muita discussão, seu "corpo" - um caixão qualquer - retornou à sua pátria. São ínfimas as chances de sequer um osso ser do poeta. Assoma o mistério da figura, e também irônico, mesmo se triste, que seus restos mortais perderam-se entremeio a ralé operária, ao passo que em sua cova sobram, como as dúbias relíquias dos santos medievais, ossos das vítimas anônimas da guerra.

Meedle-ag'd Billyum no vira-séculos, 1900s

Indeciso quanto aos seus versos - considerava a publicação mera etapa na produção autoral, sequer a última - e sua posição pública - debatente entre o ímpeto de atuação direta na história e o desejo de quietude em Thor Balylee -, Yeats, de Flaco tua estirpe, you were silly like us.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

All these are vile

Tendo recomeçado o ano acadêmico - o último no Dept. de História -, e confrontado com burocracias mil nesta última semana, não consegui ainda terminar a tradução de mais três capítulos do Moby-Dick, os quais seguem tão-logo sopre Noto (promessa factível neste Fevereiro so full of frost, of storm, and cloudiness). No mais, termino a nota histórica sobre W. B. Yeats; e reviso as traduções que fiz de Manuel Bandeira ao inglês, ao longo dos meses que morei na Inglaterra & agora, versões estas que pretendo ver publicadas algum dia.
Traduzi hoje mesmo e como exercício o soneto aí embaixo, do Britishe nightingale John Keats. Posterior ao primeiro romantismo inglês (Wordsworth e Coleridge), o poeta dificilmente pode ser 'encaixado' na geração seguinte. Figura insólita, morreu jovem (1821, aos 26 anos), e seu verso muito tem da imagética neoclassicista, embora livre do pedantismo eufônico dos dísticos heróicos; ao passo que sua sintaxe, em anacolutos e hipérbatos, o aproxima da flexibilidade do byronismo; e sua prosódia cheia de sinuosidades rítmicas já prenuncia o sprung rhythm de Gerard Manley Hopkins.
a
No, no, got not to Lethe, neither twist
wolf's-bane, tight-rooted, for its poisonous wine;

Na Ode on Melancholy (trad. por Péricles Eugênio da Silva Ramos e disponível num livreto da hedra). O diletante encontrará boa seleção de Keats, mais uma vez, pela Norton, acompanhando ensaios críticos. Seus poemas completos foram publicados pela Modern Library. Péricles; e também A. de Campos verteu o poeta ao português, no Entreversos (Unicamp) em conjunto com Byron.
Keats, assaz criticado em sua época, acusado de ininteligibilidade & hermetismo, fora destarte admirado por contemporâneos do quilate de Shelley (que lhe dedicou o Adonais) e Byron. E, como seus jovens companheiros, morreu ex patria, sepultado no Cimitero accatolico di Roma, onde também jaz o afogado Alastor. Em sua lápide, não há seu nome, lê-se apenas, ao ânimo anacreôntico deste que foi admirador ímpar dos clássicos,

This grave
contains all that was mortal,
of a
YOUNG ENGLISH POET
Who,
In his Death-Bed,
In the Bitterness of his Heart,
At the Malicious Power of his Enemies,
Desired
These Words to be engraven on his Tomb Stone,
"Here lies One whose Name was writ in Water."

*

Esta tumba
contém todo que era mortal,
de um
JOVEM POETA INGLÊS
Que,
Em seu Leito-de-Morte,
No Amargor de seu Coração,
Frente ao Poder Malicioso de seus Inimigos,
Desejou
Tais Palavras a serem cravadas em sua Lápide,
"Aqui jaz Um cujo Nome grafou-se em Água."


John Keats em seu leito de morte, por Joseph Severn

* * * * *

'TODOS ESTES SÃO VIS'.

Os versos da
Mansão do Luto do Sr. Scott,
um sermão lá na Santa Madalena, o choro
que esparrama num conto açucarado, o gozo
que segue a caminhada atrás dos bons amigos,
chá ao lado de uma garota, um punhado infame
de poemas (se dignos) com o autor por perto,
um patrono bonacho, um porre de cerveja,
a obra-mestra de Haydon, o café gelado
de madrugada quando a Musa atiça os nervos,
a voz do Sr. Coleridge, um lenço afrancesado
sobre a poça a todo passo, batuque e fumo,
um maldito vizinho grudado à sua flauta -
todos estes são vis. Porém mais vil
é o soneto de Wordsworth sobre Dover.

Dover! Quem poderia escrever aquilo?

*

'ALL THESE ARE VILE'.

The House of Mourning written by Mr. Scott,
a sermon at the Magdalen, a tear
dropped on a greasy novel, want of cheer
after a walk uphill to a friend's cot,
tea with a maiden lady, a cursed lot
of worthy poems with the author near,
a patron lord, a drunkenness from beer,
Haydon's great picture, a cold coffee pot
at midnight when the muse is ripe for labour,
the voice of Mr. Coleridge, a French bonnet
before you in the pit, a pipe and tabour,
a damned inseparable flute and neighbour -
all these are vile. But viler Wordsworth's sonnet
on Dover. Dover! Who could write upon it?

* * * * *

A vile choice, I assume, o décimo-quinto verso completando o soneto. Não encontro maneiras de suprimir um 'mais vil ainda', trad. do mínimo britânico 'viler'. De fato, o inglês é uma língua sonoramente mais concisa que o português. Rimas, igualmente, não foram vertidas perfeitamente, por acreditar que o poema ficaria açucarado (greasy; gorduroso) se assim procedesse. Recolhi rimas toantes, atentando à métrica (pentâmetros iâmbicos em alexandrinos; com exceção do tríptico final) e ao ritmo.

Logo mais, Moby-Dick.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Why translate, I [thoughts after Byron]


Ó dura ilia messorum! 'Ó
ferrenhas tripas dos ceifeiros!' Verto
ao bem maior daqueles que conhecem
a vil indigestão - aquela sorte
qual todo Estige em rio de bile corre.
O suor servil vale aos bens senhoriais.

Um por pão trabalha, o outro as contas paga;
e o que bem dorme seja o mais afortunado.

*

Oh dura ilia messorum! 'Oh
ye rigid guts of reapers!' I translate
for the great benefit of those who know
what indigestion is - that inward fate
which makes all Styx through one small liver flow.
A peasant's sweat is worth his lord's estate.
Let this one toil for bread, that rack for rent;
he who sleeps best may be the most content.


[George Gordon, Lord Byron; Don Juan, Canto IX : XV, vv.113-120]

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Les tombales

Ao passo que preparo traduções mais cuidadosas do Moby-Dick, um pouco de Yeats e texto sobre o Caedmon's Hymn, resolvi verter um conto de Guy de Maupassant ao português, Les tombales. Original de 1891, linhas quase finais do contista que morreria dois anos mais tarde. Do autor, basta saber que ele 'inventou' o conto moderno - a short story - de estilo sóbrio e concentrado, na procura de uma linguagem 'clara, lógica e incisiva', calcada na precisão emotiva de Hoffmann e de Poe mas rompendo com a escrita vaga(rosa) e eufônica da obra poética do último; circulou entre o conto, a novela, e o romance; e aportou à crítica do romantismo decrépito. Surge o conto abaixo neste viés, mistura de ironia byroniana com a ânsia psicologizante da escola realista. Maupassant, pas de nouvelles, tira sarro de ambos.
Menciona-se também a dimensão 'sobrenatural' em seus contos: diferente dos decadentes e dos românticos, o autor procurou, uma vez mais como Poe, 'contornar' o sobrenatural no cotidiano, nas situações inexplicáveis mas mundanas, palpáveis. Dúbio dizer que isso 'prenuncia' alguma coisa, de acordo com cartilhas teleológicas da literatura; mas, certamente, Maupassant foi mestre daquilo que Shklovsky cunharia como остранение, 'defamiliarização' ou o mais conhecido 'estranhamento'.
Deveras instigante foi a vida do normando. Sua produção confina-se no curto decênio 1880-90, período no qual dominou as letras francesas; e, em duas décadas, conheceu Flaubert, seu maître; Zola, Dumas e Turgeniev através do autor de Madame Bovary; e também Swinburne, num episódio inusitado - Maupassant o salvou de afogamento. Morto de sífilis, incompletos seus 43 anos, louco, escrevera anos antes, "Je suis entré dans la littérature comme un météore, j'en sortirai comme un coup de foudre".
Maupassant descansa no Cemitério de Montparnasse, em Paris.

Montmartre, Paris, em 1900.


* * * * *

AS LAPIDÁRIAS.

Encontravam-se à mesa, os cinco amigos; cinco homens do mundo, maduros, ricos, três casados, dois ainda solteiros. Reuniam-se todo mês, em memória de sua juventude; após o jantar, conversavam até as duas da manhã. Continuavam íntimos, divertiam-se, os amigos, e lá passaram talvez as melhores noites de suas vidas. Tagarelavam sobre tudo, sobre tudo que distrai e deleita os Parisienses; entre eles discutia-se, como noutros salões afora, as notícias lidas nos jornais matutinos.
Dos mais divertidos sobressaía Joseph de Bardon, solteiro e
vivant da vida parisiense em seus limites mais absolutos e fantásticos. Decerto não era depravado ou debochado, senão curioso, brincalhão, jovial ainda; somava apenas quarenta anos. Homem do mundo no sentido mais amplo e indulgente que pudesse merecer tal termo, dono de muito talento sem grande profundidade, de extenso conhecimento sem erudição verdadeira, de ágil compreensão sem penetração séria, tirava suas conclusões e histórias de tudo que viu, encontrou e descobriu, acumulando anedotas de romances, cômicos e filosóficos, e pinçadas irônicas que lhe deram por toda Paris grande reputação de inteligência.
Era o orador do jantar. Tinha-a ele, toda vez, uma história de prontidão, a qual escutávamos com atenção. Pôs-se a contá-la, sem que o pedissem.
Fumando, sobre a mesa os cotovelos, uma taça de champagne fino meio cheia lhe encarando, envolto numa atmosfera de tabaco aromatizado pelo vapor do café, bastante à vontade, como aqueles que têm domínio sobre seu próprio eu, nalguns lugares e nalguns momentos, como o devoto numa igreja, como o peixe róseo em seu aquário.
Disse, entre duas baforadas:
- Lembrei-me de um evento singular, ocorrido há algum tempo.
Quase em uníssono moveram-se as bocas, "Conte".
Retrucou:
- Com prazer. Sabem vocês que eu perambulo bastante por Paris, como os bibelômanos que inspecionam as vitrines. Já eu observo os espetáculos, a populaça, tudo que passa e tudo que se passa.
Então, nos meados de setembro, dias de clima assaz agradável, saí de casa à tarde, a esmo. Em todo homem há um vago anseio de encontrar uma garota, não importa a hora. Escolhemo-las como numa galeria, comparamo-las no pensamento, pesamos o interesse que nos inspiram, o charme que nos destilam e por fim decidimos segundo a atração do dia. Mas quando o sol é cálido e o ar lânguido, não raro ambos tiram todo ânimo para tais encontros.
O sol era cálido, e o ar lânguido; acendi um charuto e meti-me estupidamente na avenida exterior. Enquanto flanava, possuiu-me a idéia de ir até o Cemitério de Montmartre e lá entrar.
Eu amo os cemitérios, eles me transmitem sossego e melancolia: preciso deles. E depois, neles há ótimos amigos, daqueles que não poderemos ver novamente; eu os visito, de vez em quando.
Tenho justamente no cemitério de Montmartre uma história de paixão, uma amante que havia me conquistado irresistivelmente, uma garotinha encantadora cuja lembrança, ao passo que me desperta pesar insuportável, me dá saudade... saudades de toda natureza... E sobre sua tumba sonharei... Para ela está tudo acabado.
Vez mais, amo os cemitérios por serem cidades fúnebres, prodigiosamente habitadas. Imagine quantos mortos restam naquele lugar pequenino, quantas gerações lá se alojam, para sempre, verdadeiros trogloditas confinados em covas minúsculas, em simples buracos cobertos com uma pedra ou sinalizados por uma cruz, enquanto os vivos ocupam tanto espaço e fazem tanto barulho, esses imbecis.
Mais ainda, nos cemitérios há monumentos quase tão interessantes quanto os dos museus. O túmulo de Cavaignac me lembra, confesso, sem titular comparações, a obra-prima de Jean Goujon: o corpo de Louis de Brézé, deitado na capela subterrânea da catedral de Rouen; toda arte dita moderna e realista veio de lá, senhores. O falecido, Louis de Brézé, é mais realista, mais terrível, e mais cheio de carne inanimada, ainda espasmada pela dor, que todos os defuntos torturados que hoje se amontoam a granel sobre as tumbas.
Entretanto, no cemitério Montmartre pode-se, além, admirar o monumento de Baudin, sublime; o de Gautier, o de Mürger; outro dia vi uma solitária e mísera coroa de ervas-de-São-João, imortais, quem as arranjou? a última amante, macaca velha nos arredores, talvez? É uma bela estátua de Millet, mas o descaso e a sujeira a destroem. Canta a Juventude, ó Mürger!
Vi-me então entrar no cemitério Montmartre, e fui repentinamente tomado pela tristeza, por uma tristeza que não doía tanto, mas outra, tristeza que nos faz refletir, quando admitimos: 'Não é nada leviano, este lugar, mas ainda não chegou a minha hora...'
A impressão do outono, daquele mormaço lânguido que exala a morte das folhas e o sol abatido, cansado, anêmico, enaltece poeticamente a sensação da solitude e do fim definitivo que flutuam sobre o local, este que exala a morte dos homens.
Caminhava a passos curtos entre as vielas e tumbas, onde os vizinhos não se podem avizinhar, nem fazer amor, nem ler o jornal. Então comecei a ler os epitáfios. Esta talvez seja a atividade mais divertida do mundo. Jamais Labiche, jamais Meilhac me fariam rir como a comicidade da prosa funerária. Ah! quais livros, melhores que àqueles de Paul de Kock, para dar boas gargalhadas que essas placas de mármore e essas cruzes onde os parentes do morto desabafam seus lamentos, seus votos para a boa jornada ao além-mundo, e sua espera pelo reencontro - hipócritas!
Mas sobretudo gosto, nos cemitérios, do lado abandonado, solitário, pleno de teixos enormes e ciprestes, velho setor dos mortos antigos que breve serão realocados a novo setor no qual serão abatidas as árvores verdes, nutridas de defuntos humanos, para que se alinhem os recém-falecidos em estreitas galerias de mármore.
Enquanto vagava afim de refrescar o espírito, percebi que me entediava e que logo precisaria levar à última cama de minha amante condolênscias dignas de minha memória. Tinha o coração apertado ao aproximar-me de sua tumba. Pobre querida, era tão gentil, e tão passional, e tão branca, e tão frágil... e agora... se cá abrissemos...
Escorando na grade de ferro, confessei-lhe baixinho minha angústia - ela certamente não a escutou. E partia, quando vejo uma mulher de negro, em luto, derramando-se sobre o túmulo vizinho. Seu véu de cetim levantado revelava uma bela cabeça dourada, na qual fitas louras assemelhavam-se ao fulgor da aurora despontando o negrume de seu véu. Me detive.
Sem dúvidas, devia-lhe pesar um sofrimento profundo. Ela havia enterrado sua face nas mãos, e rija, numa medição estatuária, absorta em seus remorsos, compostos na sombra dos olhos ocultos contra o doloroso rosário da memória, ela mesma parecia estar morta, um cadáver que recordava a outro. De repente pressenti tê-la visto chorar, suas costas pequeninas oscilavam em cesura, qual brisa roçando os salgueiros. Ela de início chorava baixinho, logo mais forte, entre espasmos da nuca e ombros. Súbita descobriu seus olhos. Estavam cheios de lágrimas e fascinantes, olhos da loucura que, deslocados em torno de si, remetiam ao despertar de um pesadelo. Ela percebeu que eu a olhava, envergonhou-se e novamente escondeu a face entre as mãos. Agora seus soluços tornaram-se convulsos, e sua cabeça afundava lentamente no mármore. Nele repousou a testa, e seu véu estendeu-se pelos cantos alvos da sepultura querida, assim a cobrindo como o luto renovado. Eu a percebi gemer, aos soçobros na laje, e caiu inconsciente, sem se mexer.
Aproximei-me dela, agarrei-lhe as mãos, soprei-lhe as pálpebras, tudo enquanto lia o epitáfio tão simples: 'Aqui jaz Louis-Théodore Carrel, capitão da infantaria marinha, morto pelo inimigo, em Tonkin. Orai por ele.'
Morrera há alguns meses. Comovido a ponto de chorar, engoli as lágrimas. Ative-me: ela se recompôs. Tentava eu manter a compostura - faço boa figura, não tenho nem quarenta anos. Compreendi à primeira vista que ela era educada e distinta. Ela o foi, entre lágrimas alheias, e contou sua história, espalmada dos escombros de seu peito ofegante, a morte do oficial expirado em Tonkin, ao cabo de um ano de casamento, após tê-la desposado por amor, pois, orfã de pai e mãe, tinha ela apenas o dote regulamentar.
Eu a consolei, a reconfortei, a segurei, a levantei. Então lhe falei:
- Não fique aqui. Venha.
Ela murmurou:
- Não consigo andar.
- Vou lhe apoiar.
- Obrigado, senhor, pela gentileza. Você veio aqui também para chorar um falecido?
- Sim, madame.
- Uma morta?
- Sim, madame.
- Sua esposa?
- Uma amiga.
- Pode-se amar a uma amiga como a uma esposa, a paixão não tem lei.
- Sim, madame.
E então partimos juntos, ela apoiando-se em mim, eu a conduzindo pelos caminhos do cemitério. Quando saímos, ela murmurou, vacilante:
- Acho que vou desmaiar.
- Quer ir a algum lugar, comer alguma coisa?
- Sim, senhor.
Encontrei um restaurante, daqueles restaurantes onde os amigos do morto vão festejar a última corvéia. Entramos. Fiz ela beber uma xícara de café bem quente para reanimá-la. Um vago sorriso surgiu-lhe dos lábios. E ela me falou dele. Estava tão triste, tão triste de ser tão solitária na vida, tão ensimesmada, noite e dia, de não ter quem lhe desse carinho, confiança, intimidade.
Pareceu sincera; falava delicadamente, com voz suave. Eu me seguraria. Ela era muito jovem, talvez vinte anos. Fiz-lhe elogios que ela aceitou de bom grado. Logo fiava a hora, e eu lhe propus levar para casa, de carro. Ela aceitou: e, durante a jornada, colamo-nos os ombros, um contra o outro, e nosso calor misturava-se sob as vestes, o que é certamente a coisa mais perturbadora do mundo.
Quando o carro chegou em sua casa, ela murmurou: 'Sinto-me incapaz de subir as escadas sozinha, moro no quarto andar. Você foi muito gentil, poderia me emprestar o braço mais um pouquinho até meus aposentos?'
Aceitei de prontidão. A suspiros muitos, ela subiu a escada lentamente. Até que, em frente a sua porta, ela disse:
- Entre por alguns instantes para que eu possa lhe agradecer.
E eu então entrei, caramba.
Seu quarto era modesto, um pouco pobre até, mas simples e bem arrumado.
Sentamo-nos lado a lado num pequeno sofá, e uma vez mais falou-me ela de sua solidão.
Chamou sua camareira, afim de me servir alguma coisa pra beber. Não veio, a camareira. Fiquei pensando com meus botões se esta não trabalhava só as manhãs, se não seria aquilo que chamamos de diarista.
Ela tirara o chapéu. Sua beleza era verdadeira em seus olhos claros, fixados nos meus, fixados demais, claros demais para a tentação: tive-a, e cedi. Tomei-lhe nos braços, e sobre as pálpebras que se subitamente fecharam, enchi-lhe de beijos... mil, depois um cento, e mil outros depois, mais outros cem.
A princípio, resistiu, afastando-me e repetindo: 'Acabe... acabe... acabe logo com isso.'
Qual sentido dava ela a tal palavra? Em casos semelhantes, 'acabar' pode ter ao menos dois. Dei-lhe o que bem entendi, passando dos olhos à boca, em silêncio. Não mais resistiu, e quando nos olhamos novamente, depois desta afronta à memória do capitão morto em Tonkin, tinha ela um ar lânguido, reticente, resignado, que dissipou minhas inquietudes.
Em seguida, fui delicado, apreensivo e atensioso. E após mais uma hora de causalidades, perguntei-lhe:
- Onde você janta?
- Num restaurantezinho nos arredores.
- Sozinha?
- Mas claro.
- Quer jantar comigo?
- Mas onde?
- Num bom restaurante, na avenida.
Resistiu um pouco. Insisti: cedeu, ao considerar a proposta: 'Me fatigo tanto... tanto,' no que ela adicionou: 'Devo vestir algo menos sombrio.'
Entrou em seu quarto.
Quando saiu, ela estava em semi-luto, encantadora, magra e esbelta, com um vestido cinza e singelo. Tinha ela roupa de cemitério e roupa de cidade, evidentemente.
O jantar foi bastante cordial. Ela bebeu champagne, radiou-se, animou-se e consigo lhe acompanhei para casa.
Aquela relação nascida nos túmulos durou o total de três semanas. Mas de tudo se cansa, principalmente das mulheres. Deixei-a sob o pretexto de uma viagem inadiável. Ao partir, fui-lhe gentil, na medida do possível, ela me agradeceu muito. Fez-me prometer, fez-me jurar que a veria quando voltasse, pois ela parecia um pouco ligada a mim.
Fugi para outras paragens, e logo passou um mês sem que a vontade de rever aquela garotinha fúnebre fosse suficientemente forte para que eu lhe cedesse. Muito embora, não a havia esquecido... Sua lembrança me assombrava como um mistério, como um trauma psicológico, como uma dessas questões inexplicáveis cuja solução nos escapa.
Não sei porque, um dia, imaginei que eu a reencontraria no cemitério Montmartre, e lá fui.
Caminhei demoradamente e encontrava senão os visitantes comuns do local, aqueles que não podem mais romper relações com seus mortos. O túmulo do capitão morto em Tonkin não tinha mais o mármore repleto de choro, tampouco tinha flores, nem coroas de flores.
Mas, conforme me enfiava num outro setor daquela grande urbe de apresuntados, de repente percebi, no cruzamento entre avenidas, vindo até mim, um casal em luto, homem e mulher. Ah estupidez! quando se aproximaram, reconheci-a.
Era ela.
Viu-me, enrusbeceu e, como eu lhe trombei na curva, fez-me um pequeno sinal, um olhar que dizia: 'Você não me conhece,' mas cujo semblante também dizia: 'Venha me ver, querido.'
O homem era polido, distinto, arrumado, oficial da Legião de Honra, talvez uns cinquenta anos.
E ele a apoiava, como eu mesmo lhe havia apoiado antes, ao sair do cemitério.
Fiquei estupefato, confabulando sobre o que acabara de presenciar, a que raça de seres pertenceria esta caçadora sepulcral. Era ela uma garota comezinha, puta inspirada que predava sobre as tumbas os homens tristes, assombrados por amigas, esposas ou amantes, e ainda afligidos pela memória das carícias já perdidas? Era única? São muitas? É uma profissão? Fazem no cemitário como nas calçadas? As Lapidárias! Ou foi ela a primeira a ter esta idéia admirável, a profunda filosofia de explorar os remorsos de amor reacendidos nesses vãos funerários?
E eu bem que queria saber de quem ela havia enviuvado, aquele dia.


[conto publicado originalmente na revista Gil Blas, em 1891;
antologizado no mesmo ano em La maison Tellier.]


* * * * *

Maupassant, auteur du patrimonie français, foi contemplado em inúmeras edições. Curadas, anotadas, exaustivamente pesquisadas são as da Bibliothèque de la Pléiade, referência - no vol.2 encontra-se o texto de base de Les tombales usado para esta tradução. Si tu as pas d'argent, a Gallimard disponibiliza edições mais baratas, em brochura, correntes em média de EUR 6.00 cada, alguns a menos de EUR 3.00 - Boule de suif, par ex.
No Brasil, excelente tradução é a de Amílcar Bettega aos 125 contos, da Companhia das Letras. Les tombales também estão lá como As sepulcrais. Traduzi o título como As lapidárias - tombale é a lápide portuguesa - pela conceitualização indesejável do termo sepulcro nesta versão mais descaradamente pervertida.

Guy de Maupassant é deveras semelhante a Mark Twain - a mesma misantropia, o ódio para com a sociedade burguesa, o gênio solitário, a boca sem eiras, e corte similar do bigode em juventude. E Maupassant também me lembra Henry James em sua objetividade imagética. Du tout, o Spencer Brydon de The Jolly Corner muito aprendeu, em seu estilo tardio, com o francês.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Moby-Dick, c.XXXVII-XL

Justificar
'Então Deus preparou um peixe gigante para engolir Jonas. E na barriga do peixe Jonas ficou por três dias e três noites.' (Livro de Jonas, 1:17)

A pintura do Spouter Inn, descrita por Melville no c.III e recriada por Aaron Zatklin

Que Herman Melville moldara boa parte do Moby-Dick segundo princípios da dramaturgia, há muito já assinalaram os críticos; deste palco, que é o mundo, atuam vozes do Velho Testamento, de Shakespeare, e daquele poeta de grande sensibilidade dramática, Milton - não - não necessitamos buscar a crítica; basta ler o c. CVII, 'O carpinteiro', de Moby-Dick; este romance que a tudo abrange - súmula de toda artimanha que pode haver no romance - novela - conto - journey book. E, a despeito de Mortimer J. Adler, improvável acertar sobre o que é Moby-Dick: pelos olhos de Ismael, a viagem do Pequod e seu capitão enlouquecido em busca de vingança contra a baleia branca? A teimosia fatal do homem em impôr sua vontade contra o destino? A desilusão romântica do homem frente a violência da natureza? Um tratado de cetologia? Uma 'obra filosófica disfarçada de literatura' (Lewis Mumford)? A busca platônica por Deus, condenada ao fracasso? A procura de redenção num mundo condenado ao Apocalipse? Um microcosmo do cenário político oitocentista, com a América lutando pelo direito de figurar entre as democracias européias? Uma crítica velada à indústria (the whale-fishery) como 'Espírito' que agrilhoa o homem? Ahab como profeta do Leviatã? Bastião do abolicionismo? Arauto do capitalismo? É Ahab, Ahab? Mais. The great American novel, indeed. O século XIX norte-americano cabe todo em Moby-Dick, embora esta spermacetti não seja, a princípio, diminuta, em size e scope.
Traduzi a duros (& divertidos) cálamos os capítulos da primeira 'passagem dramática' do livro. Ismael sai de cena e entram, com vozes próprias, Ahab - Starbuck - Stubb - e os marujos. Noutras feitas diversas, Melville retomará este artifício dramático; equivale dizer que, embora a aventura seja contada por Ismael, lhe parecem escapar seus demais companheiros, seus respectivos diálogos. Ou trata-se do mesmo Ismael construindo ele-mesmo tais personagens afim de narrar a jornada de Ahab como um herói trágico, conforme aquele diz no início (c. XVI, 'O navio'). Atento para o estilo brincalhão com o qual verti estas passagens - não pretendem ser definitivas, senão exercício literário. Diferente de Melville, e na tentativa de salientar aos marujos cada qual uma identidade única (o que não funcionaria com meros coadjuvantes na peça), mexi bastante no registro dialógico e no vocabulário. De minha preferência foi transcriar Stubb, meu personagem favorito da trama. As linhas quase que fluíram. Afinidade do ânimo groucho-marxista.
Antes, a little on the book itself. Moby-Dick está disponível em inúmeras edições populares, pela Barnes & Noble, Penguin, Dover, Oxford e Wordsworth Library. Àqueles em busca de aparato crítico, recomendo a versão da Norton (com as cartas do autor, glossário ilustrado de termos náuticos, depoimentos e ensaios críticos), ed. Hershel Parker & Harrison Hayford; ou a anotada da Longman. Os volumes da Library of America - a Pléiade norte-americana - são standard para colecionadores. Em português, há o recém-publicado livro da Cosac Naify, trad. Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza; a julgar pela tradução de Hirsch para Bartleby, parece-me competente, embora pouco poética. E Moby-Dick, sem dúvidas, é prosa poética nada devedora de Scott. Há transcrição mais antiga de Péricles Eugênio da Silva Ramos - suspeito que o poeta meramente assinou o trabalho sem realizá-lo. Trocando em miúdos, péssimo.
A tradução que segue foi baseada no texto norte-americano (particular em algumas minúcias do britânico), a partir da referida edição crítica da Norton.
Pois escureçam o firmamento - subam as velas - e que agora sopre Ahab;

* * * * *

C. XXXVII
PÔR-DO-SOL

(A cabine; próximo à janela; sentado sozinho, Ahab fita o horizonte)

Torno a vigília pálida e opaca; onde iço a vela, os rostos e as ondas esmaecem. Invejosas, as nuvens tramam encadear meu caminho; deixa-as; primeiro, eu passo.
Longínquas, do cálice à toda-transbordante orla, cálidas as ondas coram como vinho. Áureo franzir afunda o anil. O sol mergulha - lânguido mergulho do poente; e minha alma ascende! esmera-se a subir seu monte sempiterno. É pesada em demasia, a coroa que sustento? esta Coroa de Ferro da Lombardia. Resplandece porém com inúmeras jóias; eu, o portento, não vejo seu fulgir; mas, taciturno, sinto que a porto, porto o que desfere espantoso deslumbre. Ferro - disto sei - não de ouro. Fendida, ainda – sinto-a; apunhalam-me as quinas pontiagudas, meu cérebro parece pulsar contra o metal maciço; arre, crânio de aço, o meu; do tipo que dispensa capacetes na mais periclitante disputa intelectual!
Seca o suor em minha testa? Ah! foi-se o tempo quando a aurora em sua nobreza me incitava, seguiu-se o crepúsculo anuviado. Não mais. A bela luz me não alumbra; toda beleza me é angústia, porquanto não a posso apreciar. Dotado da percepção superior, falta-me a humilde faculdade do prazer; condenado, em malevolia e sutileza! condenado no meio do Paraíso! Boa noite - boa noite! (acenando com a mão, afasta-se da janela.)
Tal não foi tão árdua missiva. Pensara que encontraria um, ao menos, a resistir; entretanto, minha roda dentada encaixa em todas suas várias polias, e assim estas funcionam. Ou, se lhe aprouver, como inúmeros montes de pólvora, a mim se defrontam; e eu seu fósforo. Ah, dureza! Que, para acender os outros, deve o fósforo riscar-se! O que ousei, eu quis, e o que eu quis, farei! Dizem-me louco - Starbuck o diz; mas sou demoníaco, sou a loucura enlouquecida! A loucura que só é plácida quando a si contempla! Afirmava a profecia que eu deveria ser desmembrado, e - arre! Perdi esta perna. Agora profetizo que desmembrarei meu desmembrador. Agora, enfim, sejam um profeta e cumpridor. Mais que vocês, deuses, jamais foram. Têm-me o riso e a zombaria, vocês, jogadores de críquete, pugilistas, Burkes surdos e Bendigos cegos! Não agirei como o garotinho aos valentões na escola, que diz - Vá procurar alguém do teu tamanho; não bata em mim! Não, vocês me derrubaram, e eu me levantei; porém vocês fugiram e se esconderam. Saiam aí de trás dos sacos de algodão! Minha arma não é longa o suficiente para lhes alcançar. Venham, Ahab lhes manda votos; venham e vejam se conseguem me entortar! Me entortar? Não conseguem me entortar, pois assim entortariam a si mesmos! o homem aí lhes cerca. Me entortar? A rota a meu objetivo é firme, assentada em trilhos de ferro; nela minha alma corre qual locomotiva. Sobre quedos desfiladeiros, através dos corações escarpados das serras, sob o leito das torrentes, infalível eu corro! Nada é obstáculo, nada é desvio à trilha férrea!

*

C. XXXVIII
CREPÚSCULO

(Próximo ao mastro principal; nele encosta-se Starbuck)

Mais que um confronto, minha alma foi subjulgada; e por um louco! Agrilhoada maldita, essa que a sanidade leva ao quedar braços neste campo! Mas ele perfurou até o fundo, e dinamitou-me toda minha razão! Enxergo, acho, seu objetivo ímpio; mas sou impelido a lhe ajudar a realizá-lo. Irei, não irei, a coisa inexorável me atracou a ele; me arrasta com uma corda que não posso cortar, pois não tenho a faca. Velhote horrendo! Quem lhe comanda, grita ele; - arre, seria um democrata a todos lá em cima; e vê como ele tiraniza a todos cá embaixo! Ah! Enxergo plenamente meu ofício miserável, - obedecer, em rebeldia; e, ainda pior, odiar com uma pitada de compaixão! Pois em seus olhos percebo certas chagas macilentas que me paralisariam, se eu as tivesse. Longas fluem as ondas e as horas. A odiosa baleia tem toda a água do mundo para nadar, qual peixinho dourado tem seu aquário. Seu desígnio blasfemo, Deus talhará. Avivaria meu coração, não estivesse este chumbado. Entretanto meu relógio inteiro pifou; meu coração, o peso não mais o equilibra, não posso mais lhe dar corda.

(Uma barulheira do castelo de proa.)
Deus! Ah, Deus! navegar com uma tripulação bárbara que pouco conheceu o carinho de mães humanas! Amamentados algures pelo mar dos tubarões. A baleia branca é seu demogorgon. Vê! as orgias infernais! aquela barulheira a bombordo! o silêncio arrefecido segue a estibordo! Eis a vida retratada. Firme dentre as vívidas vagas a proa jovial, alerta, ligeira voa, mas tão-somente para arrastar consigo o sombrio Ahab, no que ele trama em sua cabine, erigida sobre a água morta da madrugada e, mais, caçada por seu borbulhar canino. O longo uivo me arpoa! Paz! foliões, e acertem a hora. Ah, vida! numa hora como essa em que a alma estuporada e presa ao conhecimento, - como a alimentação forçada das coisas selvagens e incultas - Ah, vida! é agora que consigo sentir o terror em ti latente! mas não em mim! este terror está fora de mim! e com o fraco pulsar do que me é humano, ainda assim tentarei lutar convosco, futuros fantasmagóricos e horríveis! Acompanhem-me, sustentem-me, prendam-me, Ó vós, forças benditas!

*

C. IXL
PRIMEIRA VIGIA NOTURNA

SOBRE-QUILHA.

(Stubb solus, e remendando uma escora.)

Ha! Ha! Ha! Ha! Hem! limpa minha glote! - Matutara desde então, e, bem, ha-ha é a conclusão. E como? Pois o riso é a resposta mais sábia, mais fácil a tudo que existe de estranho; e venha o que vier, sempre sobra o conforto – aquele inefável conforto, já predestinado. Não escutei todo seu papo com Starbuck; mas, a meu ímpio olho, Starbuck parecia se sentir como eu naquela outra tarde. Certeza que o velho Mogul também o lascou. Considerei, também sabia; se eu tivesse o dom, teria profetizado na hora – pois quando meti os olhos em sua cachola, eu vi. Bem, Stubb, bom garoto, Stubb – meu termo – bem, Stubb, e aí, Stubb? Eis uma carcaça. Não sei de tudo que virá, mas, seja lá o que for, vou pra lá rindo. Que engraçado esse esgueiro de soslaio em seus horríveis! Tô me sentindo esquisito. La, ra! Urra, irra! Que meu docinho de coco tá fazendo em casa agora? Os olhos inchadinhos de chorar? – Tá fazendo festa pros arpoadores recém-chegados, isso sim, lépida como o galhardete da fragata, como eu – la, ra! Urra, irra! A-

A noite entornamos e a alma avivamos,
Às paixões que, lépidas, vão
Qual bolha devassa, à orla da taça,
Estoura nos lábios então.

Uma vara viril que – quem tá chamando? Sr. Starbuck? Arre, arre, senhor – (Virando-se) meu superior, ele, também tem o seu, ele, se não me engano. – Arre, arre, senhor, quase acabando aqui – indo.

*

C. XL
MEIA-NOITE, CASTELO DE PROA

ARPOADORES E MARUJOS.

(Sobe o traquete, revelando a vigia parada, inclinada, apoiada, e disposta em várias posições, todas cantando em coro.)

Até logo e adeus, mias espanholinhas!
Até logo e adeus, donzelas de Espanha!
Mandou o capitão–

1º MARUJO DE NANTUCKET.

Ah, garotos, não sejam sentimentais; é péssimo pra digestão! Tomem uma tônica, sigam-me!

(Canta, e todos o seguem.)

Convés, e o telescópio em punho
Lá estava o capitão,
À guisa das baleias nobres
Que nadam n’amplidão.
Nos barcos os tonéis, garotos,
E os remos em suas mãos,
Teremos mais baleias gordas,
Fisgadas pelo arpão!
Ânimo, jovem! Nunca esmoreça, nunca receia!
Enquanto o arpoador corajoso atravessa a baleia!

VOZ DO IMEDIATO NO TOMBADILHO SUPERIOR.

Oito badaladas, avante!

2º MARUJO DE NANTUCKET.

Basta de cantoria! Oito badaladas! tu escutas, sineiro? Badala o sino oito vezes, tu, Pip! tu, neguinho! e deixa que chamo a vigia. Tenho boca pra isso – a boca da barrica. Aí, aí, (enfia a cabeça na escotilha,) Esti-n-a-u-t-a-s, a-l-o-u! Oito badaladas aí embaixo! Levantem!

MARUJO HOLANDÊS.

Boa soneca esta noite, companheiro; tenra noite pra tal. Percebo no vinho do velho Mogul; tão letal a alguns, quão estimulante a outros! Nós cantamos; eles dormem – arre, fiquem aí deitados, imersos como pipas de vinho. Neles de novo! Toma aí essa bomba de tanoeiro, chama eles com isso. Diz pra deixarem de sonhar com suas garotas! Diz que é a ressurreição; que devem dar o último beijo e aguardar o juízo. Assim que se faz – assim; tua garganta não reclama da manteiga de Amsterdã.

MARUJO FRANCÊS.

Psiu, gaminhos! Vamos mais uma rodada ou duas antes que ancoremos na Baía da Coberta. Que me falam? Aí vem o outro vigia. De pé a todo custo! Pip! pequeno Pip! hurra com seu tamborim!

PIP.
(Amuado e sonolento.)

Sei não onde é.

MARUJO FRANCÊS.

Bate na tua pança, então, e abana tuas orelhas, mais uma rodada, homens, eu digo; divertir-se é a ordem, hurra! Orra, você não vai dançar? Juntos, agora, em fila indiana, e galopem com os sapatos? Soltem-se! Pernas! pernas!

MARUJO ISLANDÊS.

Não me agrada teu piso, companheiro; muito flexível pro meu gosto. Estou acostumado com pisos de gelo. Desculpe por jogar um balde de água fria na questão; com sua licença.

MARUJO MALTÊS.

Eu idem; cadê suas garotas? Quem senão um idiota trocaria a mão certa pela errada e diria a si mesmo, como cê tá? Parceiros! Preciso de parceiros!

MARUJO SICILIANO.

Raparigas e um verde – então até eu salto convosco; issa, pula gafanhoto!

MARUJO DE LONG-ISLAND.

Bom, bom, seus carrancudos, há muitos mais de nós aqui. Sachem a espiga se quiserem, digo eu. As pernas logo irão pra colheita. Ah! Aí vem a música; pra ela agora!

MARUJO DOS AÇORES.
(Subindo, e arremessando o tamborim na escotilha.)

Tá aí, Pip; e tá aí as baquetas do molinete; aí vão! Agora, garotos!

(Metade deles dança ao som do tamborim; alguns descem; alguns dormem ou deitam entre as duchas dos cordames. Juras a mil.)

MARUJO DOS AÇORES
(Dançando.)

Vai nessa, Pip! No murro, sineiro! Não para, não para, não para não! Faísca o vagalume; quebra o batuque!

PIP.

Batuque, cê diz? – aí vai outro, pendido; cai no pancadão.

MARUJO CHINÊS.

Portanto range teus dentes e dá a pancada: sê como o pagode.

MARUJO FRANCÊS.

Maluco-beleza! Segura o aro, Pip, até que eu o atravesse! Solta as velas! arrebentem!

TASHTEGO.
(Fumando silente.)

Eis um homem branco; ele chama aquilo de diversão; hunf! Poupo meu suor.

MARUJO VELHACO.

Questiono se tais joviais mancebos têm noção de sobre o que dançam. Dançarei sobre vossa tumba, eu vou – eis a pior injúria de vossas damas noturnais, as quais contra o vendaval zunem pelos cantos. Ó Cristo! imaginar as verdejantes naus, e as tripulações de crânio pantanosos! Bem, bem; seja o mundo qual bola unívoca, conforme sustentam vossos doutos; justo que dele façam baile. Dançai mancebos, sois jovens; outrora o fui.

3º MARUJO DE NANTUCKET

Entoa o! – ufa! isso é pior que puxar baleias em águas calmas – dá uma pitada, Tash.

(Param de dançar, e se agrupam; no ínterim, o céu escurece – o vento sobe.)

MARUJO DE LASCAR.

Por Brahma! rapazes, em breve faz-se içar a vela. Curvado ao vento, o Ganges do levante e da maré! Tu mostras tua fronte sombria, Seeva!

MARUJO MALTÊS.
(Inclinando-se e apertando o boné.)

São as ondas – cantam-nas agora as calotas de neve. Logo agitarão barretes seus. Fossem as ondas todas mulheres, nelas me afogaria, bailando pra sempre! Nada há de mais encantador na terra – nem mesmo o Paraíso! – que o requebrar das brônzeas cinturas, selvagens em relance, enquanto os braços arbóreos escondem as uvas redondas e durinhas!

MARUJO SICILIANO.
(Inclinando-se.)

Nem me fale! Escuta, bambino – lépido entrelace dos membros – ágil e fluídos–oscilantes–sinuosos! boca! cora! anca! roçam em conjunto; se tocam, remexem! sem provar, te nota, senão satisfaz. Eh, Infiel? (Cutucando.)

MARUJO DO TAITI.
(Escorando-se numa esteira.)

Bendita seja a nudez sagrada de nossas dançarinas! – o Heeva-Heeva! Ah! o Taiti, em seus vales profundos e palmeiras altas! Ainda descanso em tua esteira, mas o solo deslizou molhado! Eu te vi trançada entre troncos, esteira minha! verdejante era no dia em que te trouxe; hoje pálida e descorada. Ó vida! – nem tu nem eu suportamos o tempo! Como, se removida àquele céu? Escuto eu os gemidos das torrentes no pico íngreme de Pirohitee, quando dos penhascos saltam e os vilarejos inundam? – A rajada! A rajada! Ereta, coluna, enfrenta-a! (Põe-se de pé.)

MARUJO PORTUGUÊS.

Quais vagas a esparrinhar saltitantes contra a banda! A rizar, tesos corações! a borrasca está somente a brandir espadas, acá a entrever borrifas.

MARUJO DINAMARQUÊS.

Craca, craca, escuna gasta! enquanto tu cracas, seguras! Desse modo! Firme segura-te o marujo. Não mais medroso é ele que a fortaleza insular em Cattegat, lá situada para barrar os Bálticos com tempestuosos canhões, sobre os quais enferrujam as saleiras!

4º MARUJO DE NANTUCKET.

Ele tem ordens a seguir, note bem. Escutei o velho Ahab lhe dizer que se deve golpear a onda sempre, algo como atirar num jato d’água com uma pistola – dispara teu navio no coração da tempestade!

MARUJO INGLÊS.

Raios! mas aquele velhote é um sujeito temeroso! Nós, os garotos, somos quem o levaremos até a baleia!

TODOS.

Arre! Arre!

MARUJO VELHACO.

Como balouçam os três pinhos! Os pinhos são a espécie arbórea mais debilitada quando alocadas a outro solo, e cá nada mais existe senão o maldito barro dessa marujada. Rijo, timoneiro! rijo. Neste tipo de clima os corações vacilam em terra firme; e as quilhas arrebentam cá no mar. Nosso capitão tem seu cravo de nascença; olhai algures, mancebos, há outra no páramo – lúgubre, percebei, qual resto negrume absoluto.

DAGGOO.

E daí? Quem teme o negro, teme a mim! Cansei de firulas!

MARUJO ESPANHOL.

(Ao lado.) Pensa que intimida, ah! – o velho rancor me sensibiliza. (Avançando.) Arre, arpoador, tua raça é o lado negro inegável da humanidade – negro diabólico, digo eu. Sem ofensas.

DAGGOO.
(Soturno.)

Nenhuma.

MARUJO DE SÃO TIAGO.

Aquele espanhol tá louco ou borracho. Mas não pode ser isso; ou em seu caso o fogo marinho do velho Mogul funcionou que é uma beleza.

5º MARUJO DE NANTUCKET.

Que é isso–relâmpago? É.

MARUJO ESPANHOL.

Não; Daggoo mostrando os dentes.

DAGGOO.
(Saltando.)

Engole os teus, nanico! Pele branca, fígado branco!

MARUJO ESPANHOL.

Te furo do coração! tamanho enorme, brio minúsculo!

TODOS.

Porrada! porrada! porrada!

TASHTEGO.
(Baforando.)

Porrada cá em baixo, porrada lá em cima – Deuses e homens – ambos encrenqueiros! Hunf!

MARUJO DE BELFAST.

Porrada! Aha porrada! Bendita a Virgem, porrada! Salto aí no meio!

MARUJO INGLÊS.

Jogo limpo! Tirem a faca do espanhol! Um ringue, um ringue!

MARUJO VELHACO.

Alinhados. Lá! o ringue horizontal. Nele Cain golpeou Abel. Obra doce, obra justa! Não? Por que, Deus, fizeste então o ringue?

VOZ DO IMEDIATO DO TOMBADILHO SUPERIOR.

Segurem nas adriças! nas velas do mastaréu! Escorem no filão da gávea!

TODOS.

A onda! a onda! pulem, meus queridos! (Espalham-se.)

PIP.
(Tremendo sob o molinete.)

Queridos? Que o Senhor queira eles bem! Crash, crish! aí vai a bujarrona! Bum, bam! Jesus! Abaixa, Pip, aí vem a armada real! É pior que ficar perdido no mato, no último dia do ano! Quem vai procurar castanha agora? Mas aí vão eles, reclamando, e cá eu não. Boa sorte pra eles; tão no caminho do céu. Segura firme! Meu São Crispim, que onda! Mas aqueles caboclos lá são piores ainda – as ondas brancas, são. Ondas brancas? baleia branca, oxi! oxi! Escutei tudo que falou aqui, e a baleia branca – oxi! oxi! – mencionada uma vez só! e nessa noite só – faz eu batucar todinho como meu tamborim – aquela jibóia do velhote mandou todo mundo caçar ela! Ai, seu Deus brancão nalgum canto do escuro aí em cima, tem piedade desse negrinho cá embaixo; livrai ele de todos homens sem tripas pra sentir medo!


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Moby-Dick foi originalmente publicado em 1851. Ismael - Melville - descansa em Woodlawn Cemetery, no Bronx.
Num jato d'água volto para traduzir mais do livro - este que William Faulkner, justo, afirmara querer ter escrito. 'I wish I had written that'.