segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Love Poem


Um Poema de Amor

todas as mulheres
todos os seus beijos as
maneiras diferentes de amar e
falar e precisar.

suas orelhas todas elas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

geralmente
as mulheres são muito
calorosas elas me lembram
pão com manteiga com a manteiga
derretida
nele.

há um jeito de
olhar: elas foram
usadas elas foram
enganadas. não sei ao certo o que
fazer por
elas.

eu sei
cozinhar bem e sei
escutar bem
mas nunca aprendi a
dançar - estava então ocupado
com coisas maiores.

mas eu aproveitei suas diferentes
camas
fumando cigarros
olhando pro
teto. eu não fui cruel tampouco
injusto. só um
aprendiz.

sei que todas têm esses
pés e de pés descalços elas atravessam o quarto e
eu observo suas nádegas envergonhadas no
escuro. eu sei que elas gostam de mim, algumas até
me amam
mas eu amo muitas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas vitamínicas;
outras falam timidamente da
infância e dos pais e
de paisagens; algumas são quase
loucas mas nenhuma delas é sem
sentido; algumas sabem
amar, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre são
as melhores em outras
coisas; cada uma tem limites como eu tenho
limites e nós conhecemos
um ao outro
logo.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos
os tapetes as
fotos as
cortinas, é
algo como uma igreja só
às vezes se
ri.

aquelas orelhas aqueles
braços aqueles
cotovelos aqueles olhos

contemplativos, o afeto e
a carência eu fui
tomado eu fui
tomado.


*

A Love Poem

all the women
all their kisses the
different ways they love and
talk and need.

their ears they all have
ears and
throats and dresses
and shoes and
automobiles and ex-
husbands.

mostly
the women are very
warm they remind me of
buttered toast with the butter
melted
in.

there is a look in the
eye: they have been
taken they have been
fooled. I don't quite know what to
do for
them.

I am
a fair cook and a good
listener
but I never learned to
dance - I was busy
then with larger things.

but I've enjoyed their different
beds
smoking cigarettes
staring at the
ceiling. I was neither vicious nor
unfair. only
a student.

I know they all have these
feet and barefoot they go across the floor as
I watch their bashful buttocks in the
dark. I know that they like me, some even
love me
but I love very
few.

some give me oranges and vitamin pills;
others talk quietly of
childhood and fathers and
landscapes; some are almost
crazy but none of them are without
meaning; some love
well, others not
so; the best at sex are not always the
best in other
ways; each has limits as I have
limits and we learn
each other
quickly.

all the women the
women all the
bedrooms
the rugs the
photos the
curtains, it's
something like a church only
at time there's
laughter.

those ears those
arms those
elbows those eyes

looking, the fondness and
the wanting I have been
held I have been
held.

*  *  *  *  *

Publicado originalmente em War All the Time, de 1984.
A polaróide é da fotógrafa norte-americana Francesca Woodman (1958-1981).

Bukowski as entendia.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

it is not much


não é muito

eu suponho como outros que
vim pelo fogo e pela espada,
pelo amor frustrado,
pela cara no muro, bêbado no mar,
e eu escutei a música simples da água corrente
na banheira
e quis me afogar
mas não podia de jeito nenhum suportar
que outros carregassem meu corpo três andares abaixo
por entre as boquetas curiosas dessas biscates;
a psyche foi queimada
e nos deixou insensatos,
o mundo tem sido mais escuro que as luzes apagadas
num armário cheio de morcegos famintos,
e o uísque e o vinho penetraram nossas veias
quando o sangue era fraco demais para fluir;
e acontecerá com outros,
nossos momentos felizes serão poucos
porque temos um senso crítico
e quase nunca nos deixamos enganar pelo riso;
insetos montam no pára-brisa
mas conseguimos ver além
uma paisagem desolada
e que aproveitem seu momento;
só pedimos que leopardos guardassem
nossos sonhos esquálidos.
certa vez estava eu lá deitado num
hospital branco
para os moribundos e o moribundo
eu, onde algum deus mijou uma chuva de
razão para fazer as coisas crescerem
só para morrerem, onde de joelhos
orei por LUZ,
orei por l*u*z,
e orando
rastejei como um verme cego na
teia
onde fios de vento colaram atrás da minha mente
e então morri de pena
do Homem, de mim mesmo,
e uma cruz sem pregos,
vendo cheio de medo como
o porco se esbalda em seu chiqueiro, peida,
pisca, e come.

*

it is not much

I suppose like others
I have come through fire and sword,
love gone wrong,
head-on crashes, drunk at sea,
and I have listened to the simple sound of water running
in tubs
and wished to drown
but simply couldn't bear the others
carrying my body down three flights of stairs
to the round mouths of curious biddies;
the psyche has been burned
and left us senseless,
the world has been darker than lights out
in a closet full of hungry bats,
and the whiskey and wine entered our veins
when blood was too weak to carry on;
and it will happen to others,
and our few good times will be rare
because we have a critical sense
and are not easy to fool with laughter;
small gnats crawl our screen
but we see through
to a wasted landscape
and let them have their moment;
we only asked for leopards to guard
our thinning dreams.
I once lay in a
white hospital
for the dying and the dying
self, where some god pissed a rain of
reason to make things grow
only to die, where on my knees
I prayed for LIGHT,
I prayed for l*i*g*h*t,
and praying
crawled like a blind slug into the
web
where threads of wind stuck against my mind
and I died of pity
for Man, for myself,
and a cross without nails,
watching in fear as
the pig belches in his sty, farts,
blinks, and eats.


*   *   *   *   *

Charles Bukowski nasceu em Andernach, Alemanha, em 1921, e morreu de leucemia em 1994, em Los Angeles. Maldito, poeta das ruas e dos malogros, da melancolia furiosa e contemplativa,  escreveu como nenhum outro a frustração e a angústia daquele geração perdida dos poemas de Ginsberg, I saw the best minds of my generation. Seus versos dilacerados, abruptos, são como navalhas enferrujadas e imundas que entrecortam olhos e garganta. Seus poemas são como as baratas sem as quais a cidade em que vivemos sequer existiria. Bukowski encarna o lado imundo, negligenciado e indigente, do homem e da cidade, nossos semelhantes, nossos irmãos.

Sua poesia está reunida em The pleasures of the damned (New York: HarperCollins, 2007); it is not much é do último livro The people look like flowers at last (As pessoas se parecem finalmente com flores), de 2007.
O escritor é publicado no Brasil pela L&PM.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

mind and heart



espírito e coração

incompreensivelmente estamos sozinhos
sempre sozinhos
e é pra ser desse
jeito,
nunca foi pra ser
de outro jeito -
e quando a luta pela vida
começar
a última coisa que desejo ver
é
um círculo de rostos humanos
pairando sobre mim -
melhor só meus velhos amigos,
os muros do meu eu,
que só eles estejam lá.

eu estive sozinho mas raramente
solitário.
eu satisfiz minha sede
no poço
do meu eu
e esse vinho era bom,
o melhor que já provei,
e hoje de noite
sentado
olhando pra dentro do escuro
eu agora finalmente entendo
o escuro e o
claro e tudo
que há no meio.

paz de espírito e coração
chega
quando aceitamos o que
é:
tendo
nascido nesta
vida estranha
precisamos aceitar
a aposta vã de nossos
dias
e sentir alguma satisfação no
prazer de
deixar tudo para
trás.

não chore por mim.

não fique triste por mim.

leia
o que escrevi
então
esqueça
tudo.

beba do poço
do seu eu
e comece
de novo.

*

mind and heart

unaccountably we are alone
forever alone
and it was meant to be
that way,
it was never meant
to be any other way -
and when the death struggle
begins
the last thing I wish to see
is
a ring of human faces
hovering over me -
better just my old friends,
the walls of my self,
let only them be there.

I have been alone by seldom
lonely.
I have satisfied my thirst
at the well
of my self
and that wine was good,
the best I ever had,
and tonight
sitting
staring into the dark
I now finally understand
the dark and the
light and everything
in between.

peace of mind and heart
arrives
when we accept what
is:
having been
born into this
strange life
we must accept
the wasted gamble of our
days
and take some satisfaction in
the pleasure of
leaving it all
behind.

cry not for me.

grieve not for me.

read
what I've written
then
forget it
all.

drink from the well
of your self
and begin
again.


*   *   *   *   *

A poesia quase completa de Charles Bukowski foi editada por John Martin em The pleasures of the damned (Nova York: HarperCollins, 2007). mind and heart é de Come on in! (2006), penúltimo livro de poemas do autor.

sábado, 8 de outubro de 2011

Memnona si mater

Eis a nona elegia do livro terceiro dos Amores de Ovídio (43 a.C. - 17 d.C.), o emocionante θρῆνος dedicado a Álbio Tibulo (55 a.C. - 19 a.C.), iniciado numa tarde na biblioteca e finalizado em três madrugadas desbravadas com Lewis & Short e o vetusto Saraiva. Tentei adaptar, como o fez Castilho em alguns versos dos Fasti & tradutores mais, o dístico elegíaco - hexâmetro/pentâmetro dactílico, ou "o verso heróico" e um "hexâmetro cataléptico" (visite a βιβλιοθήκη de Fócio, codex CCXXXIX na χρηστομαθία de Proclo) em dísticos de alexandrinos/decassílabos, sejam acentuados na sexta, ou na quarta/oitava. Não obedeci à ordem dactílica, aqui o verso é flexível, maioria das vezes iâmbico: transpor sessenta-e-oito versos de Ovídio em metros regulares por ora já me é dificuldade suficiente.

scilicet hanc legem nentes fatalia Parcae / stamina bis genito bis cecinere tibi.
[sim, este ordo fatais rodopiando as Parcas / as rocas bitoaram a ti bigênito]

* * * * *

AMORES III.9
Se a mãe Mêmnon chorou, e a mãe chorou Aquiles,
e tristezas raptaram deusas magnas,
em pranto solta os cachos teus, ó Elegia!
ai, agora teu nome soará alto!
o poeta da sanha, fama tua, Tibulo
arde na pira nua, o corpo frio.
ai ai, filho de Vênus leva a aljava torta,
em cacos arco e flecha, a luz sem luz!
vai, olha, de asas baixas tomba o miserando,
lhe pesa o coração no peito nudo!
afogam lágrimas na nuca os descabelos,
e as vozes abatidas num soluço!
conta-se, belo Julo, do domo assim partiu

que as exéquias cobriu de Enéias teu
;
Vênus assim se fende de Tibulo morto,
como outrora fendeu-se a coxa adônea!
somos porém chamados de "divinos", "sacros",
e há aqueles que nos tomam como numes.
sim, todo o sacro a Morte insidiosa profana,
arrasta a todos com obscuras garras!
a que o pai, a que a mãe valeu a Orfeu Ismário?
a que valor seu canto abranda-feras?
o mesmo pai a Linos em matas alheias
na lira "ai Linos!" só contratoava;
a ele soma o Meônio, o qual, fonte perene,
os vates amamenta com os veios
da Piéria: ele o Averno negro também bebe!
os cantos logram sós fugir da pira.
de vates a obra, em ruínas afamada Tróia,
reurdida a tela, ardil noturno, vivem;
longo será de Nêmesis, de Délia o nome,
uma a dor recente, esta o prima amada.
a que vos vale o sacro? e o sistro, a que vos serve?
a que no leito esbanjam madrugadas?
a sina má (perdoai o tom!) se os bons abate,
agito-me em pensar que não há deuses!
se vives mesmo em pio, morres; te louva os numes,
dos templos Morte afunda ao reles chão!
a poesia sobrevive! e ai que jaz Tibulo!
dele resta mais nada que uma urna!
acaso a ti tomaram, vate, a ti temeram
sorver as chamas fúnebres teu peito?
pudessem dos celícolas os áureos templos
brasar, que sacrilégio tanto viram!
virou a face a deusa dos montes Erícios,
e conta-se que em lágrimas desfez-se!
tanto entre nós morreu, que nas terras Feácias
sepulto fosse, ignoto, em solo vil.
aqui cerrou a mãe do lívio os olhos úmidos
e às cinzas deu as últimas ofertas;
aqui à partilha veio a irmã da dor materna,
esfarrapar as tranças desgrenhadas,
e aos teus deitaram beijos Nêmesis e a prima
solitárias que as chamas não pereçam!
Ai, Délia, 'Eras feliz outrora, tu me amaste!
Viveste, enquanto eu era a brasa tua!'
E Nêmesis, ai, 'A ti que são as dores minhas?
a mim foi que estendeu a mão mortiça!'
se então sobrar de nós senão o nome e a sombra,
Tibulo viverá no vale Elísio!
virás a seu encontro, da hedera cingido,
jovem Catulo, o douto Calvo teu;
e tu também, se falso é o fatricídio, pródigo
Galo que tanto deste suor e sangue!
se a sombra tem feição,
tua sombra é sócia deles!
culto Tibulo, mais alto cantaste!
ossos, ai, rogo, agora cala, urna, descansa,
e seja leve a relva às cinzas tuas!


*

AMORVM LIBER III.IX

Memnona si mater, mater plorauit Aquillem,
et tangunt magnas tristia fata deas,
flebilis indignos, Elegia, solue capillos;
a, nimis ex uero nunc tibi nomen erit!
ille tui uates operis, tua fama, Tibullus
ardet in exstructo corpus inane rogo.
ecce puer Veneris fert euersamque pharetram
et fractos arcus et sine luce facem;
aspice, demissis ut eat miserabilis alis
pectoraque infesta tundat aperta manu.
excipiunt lacrimas sparsi per colla capilli,
oraque singultu concutiente sonant.
fratris in Aeneae sic illum funere dicunt
egressum tectis, pulcher Iule, tuis.
nec minus est confusa Venus moriente Tibullo
quam iuueni rupit cum ferus inguen aper.
at sacri uates et diuum cura uocamur,
sunt etiam qui nos numen habere putent.
scilicet omne sacrum Mors importuna profanat;
omnibus obscuras inicit illa manus.
quid pater Ismario, quid mater, profuit Orpheo,
carmine quid uictas obstipuisse feras?
et Linon in siluis idem pater 'aelinon' altis
dicitur inuita concinuisse lyra.
adice Maeoniden, a quo ceu fonte perenni
uatum Pieriis ora rigantur aquis;
hunc quoque summa dies nigro summersit Auerno.
defugiunt auidos carmina sola rogos.
durat opus uatum, Troiani fama laboris
tardaque nocturno tela retexta dolo:
sic Nemesis longum, sic Delia nomen habebunt,
altera cura recens, altera primus amor.
quid uos sacra iuuant? quid nunca Aegyptia prosunt
sistra? quid in uacuo secubuisse toro?
cum rapiunt mala fata bonos, (ignoscite fasso)
sollicitor nullos esse putare deos.
uiue pius: moriere; pius cole sacra: colentem
Mors grauis a templis in caua busta trahet.
carminibus confide bonis: iacet ecce Tibullus;
uix manet e tanto, parua quod urna capit.
tene, sacer uates, flammae rapuere rogales,
pectoribus pasci nec timuere tuis?
aurea sanctorum potuissent templa deorum
urere, quae tantum sustinere nefas.
auertiti uultus, Erycis quae possidet arces;
sunt quoque qui lacrimas continuisse negant.
sed tamen hoc melius, quam si Phaeacia tellus
ignotum uili supposuisset humo.
hic certe madidos fugientis pressit ocellos
mater et in cineres ultima dona tulit;
hic soror in partem misera cum matre doloris
uenit inornatas dilaniata comas,
cumque tuis sua iunxerunt Nemesisque priorque
oscula nec solos destituere rogos.
Delia discedens 'felicius' inquit 'amata
sum tibi: uixisti, dum tuus ignis eram.'
cui Nemesis 'quid' ait 'tibi sunt mea damna dolori?
me tenuit moriens deficiente manu.'
si tamen e nobis aliquid nisi nomen et umbra
restat, in Elysia ualle Tibullus erit.
obuius huic uenies hedera iuuenalia cinctus
tempora cum Caluo, docte Catulle, tuo;
tu quoque, si falsum est temerati crimen amici,
sanguinis atque animae prodige Galle tuae.
his comes umbra tua est, si qua est modo corporis umbra;
auxisti numeros, culte Tibulle, pios.
ossa quieta, precor, tuta requiescite in urna,
et sit humus cineri non onerosa tuo.

* * * * *

"Espelho da decadência romana", Públio Ovídio Nasão nasceu em 43 a.C. em Sulmona, na Itália central. Foi o último dos grandes poetas do período augustano, dentre eles o mais jovem. De verso fluído e fácil e ligeiro, diversos creram frívolo e flébil, lascivo no juízo de Quintiliano¹, artífice do verso, estendeu a mão a vários metros e gêneros: autorou epopéia (as Metamorfoses), elegias (Amores), epístolas (as Heróides, as Tristia, as Do Ponto), tragédia (uma Medéia, hoje perdida); escreveu poesia amorosa, épica, didática, de teor político. Foi poeta muito lido no medievo a despeito de sua (im)piedade pagã; Dante, Petrarca e Chaucer são repositários do italiano, tal qual tardiamente Shakespeare, Goethe, Stefan George, E. Pound. Morreu no exílio, figura à margem, em 17.
Esta tradução baseia-se no texto publicado em P. Ovidi Nasonis Amorum Libri da Oxoniensis, (ed. E. J. Kenney, 1995). A imagem é afresco de Herculano; o dístico fatídico é da epístola terceira do quinto livro das Tristia, vv.25-26.
Vez outra, recomendamos as eds. da Belles Lettres (trad. Henri Bornecque, 1930) e da Loeb Classical Library (trad. Grant Showerman, 1914 e revisada por G. P. Goold). Peter Green, tradutor de Catulo, versou Ovídio em inglês nos The Erotic Poems da Penguin.
Os Amores foram recentemente reunidos à Arte de Amar na coleção Companhia das Letras-Penguin, no luso de Carlos Ascenso André, anteriormente publicadas em dois tomos pela Cotovia. Nela há notas do tradutor e útil introdução acerca da vida de Ovídio, por Peter Green, a mesma da ed. inglesa; o português não trai o conteúdo, mesmo se bastante prosaico.
O primeiro livro dos Amores recebeu cuidadosa recriação de Lucy Ana de Bem, via hedra. Resta esperarmos os dois restantes, se vindo.
Mais antigo, Antônio Feliciano de Castilho traduziu os Amores, em conjunto com A Arte de Amar e os Fastos. Estes últimos, ímpares na tradução oitocentista de clássicos, merecem reedição criteriosa qual Odorico Mendes. Consultei suas soluções para a elegia III.9, transpostas em quintilhas de decassílabos rimados. Não funciona. Esvai-se a pungência do embate característico do verso elegíaco - notem, no poema, a incoerência entre a poesia, supostamente imortal, e o corpo de Tibulo morto: o poeta nega-se a estabelecer uma conclusão; Castilho também transforma-o num mero artífice do verso, um jogral, um jongleur. Ovídio foi sim virtuoso, erudito parelho de Propércio e Horácio, formalmente o mais audacioso do latim clássico. No entanto e além, no que a força de Virgílio vem do Estado e da História; e a de Horácio do ofício apícola, também da natureza bruta & pindárica; a de Ovídio, das emoções humanas. Em Roma foi ele o grande poeta do patético.

[1] Elegia quoque Graecos provocamus, cuius mihi tersus atque elegans maxime videtur auctor Tibullus. sunt qui Propertium malint. Ovidius utroque lascivior, sicut durior Gallus. (Institutio Oratoria, X.I.93)
[Também rivalizamos os gregos na elegia, donde nosso autor mais polido e elegante, parece-me, é Tibulo. Há aqueles que preferem Propércio. Ovídio é mais lascivo que ambos, ao passo que Galo é mais rude.]

sábado, 24 de setembro de 2011

a.d.VIII Kal. Oct.

§1.EPIGRAMA V.LVIII.

"Amanhã hei de viver", sempre amanhã, Póstumo, dizes.
me diz, esse amanhã, vai chegar quando?
vai demorar? onde está? e de onde vem?
por acaso escondido sob Partos, Armênios?
esse amanhã já conta os anos de Príamo e Nestor.
esse amanhã, me diz, sai por quanto no varejo?
viverás amanhã: viver o hoje, Póstumo, já é tarde.
sabe-o quem quer que já viveu o ontem.

*

cras te victurum, cras dicis, Postume, semper.
dic mihi, cras istud, Postume, quando venit?
quam longe est cras istud? ubi est? aut unde petendum?
numquid apud Parthos Armeniosque latet?
iam cras istud habet Priami vel Nestoris annos.
cras istud quanti, dic mihi, possit emi?
cras vives: hodie iam vivere, Postume, serum est.
ille sapit, quisquis, Postume, vixit heri.

* * * * *

§2.
O MASSACRE DOS INOCENTES.

I
[HERODES]

Porque estou confuso, porque devo saber, porque minha decisão deve se conformar à Natureza e ao Necessário, para que eu honre aqueles que fizeram de mim o que por natureza sou.
A Fortuna - já que me tornei Tetrarca, que escapei de ser assassinado, que mesmo aos sessenta tenho cabeça boa e boa digestão.
A meu pai - agradeço-lhe o amor pelas viagens e pelo estudo.
A minha mãe - por um nariz romano.
A Eva, minha mãezinha de cor - pelos hábitos do dia-a-dia.
A meu irmão, Arenário, que se casou com uma trapezist
a e morreu da bebida - assim refutando a posição dos Hedonistas.
Ao Sr. Camacho, vulgo A Carpa, que me instruiu nos elementos da geometria através dos quais pude reconhecer os erros dos poetas trágicos.
Ao Professor Farol - por suas aulas sobre
A Guerra do Peloponeso.
Ao estranho no barco à Sicília - por me recomendar Fulvo sobre a Resolução.
E a minha secretária, Srta. Bula - por sua sinceridade em admitir que meus discursos eram inaudíveis.

Não há desordem aparente. Nenhum crime - nasce o filho de um artesão, o que poderia ser mais inocente que isso? Hoje tivemos um daqueles dias perfeitos de inverno: frio, luminoso, recôndito e calado, no que latido do cão pastoril ecoa por quilômetros, e os montes íngremes e silvestres tombam aos muros da urbe, o espírito agita-se em furor, e neste fim de tarde, enquanto me apóio na janela no topo da cidadela, não há nada, ao que espalha todo o panorama de montes e planícies, a indicar que o Império esteja ameaçado por um perigo mais temível que uma invasão de Tártaros sobre velozes camelos ou um
a conspiração da Guarda Pretoriana.
Barcaças descarregam fertilizante nos cais rio adentro. Drinques e sanduíches podem ser comprados a preços módicos nas estalagens. A jardinagem está na moda. A estrada pela encosta escala até a montanha, e os charreteiros não mais carregam armas. As coisas começam a tomar jeito. Faz um tempo desde que alguém roubou os bancos da praça ou imolou os cisnes. Nesta província há garotos que nunca viram piolhos, lojistas que nunca seguraram uma moeda falsa, quarentonas que nunca se meteram numa pocilga a não ser por diversão. Sim, em vinte anos fiz alguma coisa. Claro, não é o bastante. Há vilas nas redondezas, bem perto daqui, onde ainda acreditam em bruxas. Não há uma única cidade onde uma boa livraria conseguiria se sustentar. Pode-se contar nos dedos de uma mão quantas pessoas são capazes de resolver o enigma de Aquiles e a Tartaruga. Ainda assim, é um começo. Em vinte anos a escuridão foi empurrada alguns metros. E, afinal, esse Império todo fixado em alguns milhares de metros quadrados, onde é possível conduzir a vida segundo a Razão, o que ele é senão um minúsculo remendo de luz comparado com aquelas áreas imensas de noite bárbara, que o cercam por todos os lados, aquela selvageria de fúria
e terror, onde esses Mongóis idiotas são tidos como sagrados e mães parindo gêmeos são instantaneamente sentenciadas à morte, onde a malária é tratada na base do grito, onde guerreiros excepcionalmente corajosos obedecem o comando de usurpadoras histéricas, onde os melhores cortes de carne são dedicados aos mortos, onde, se virem um meiro branco, param todas as atividades do dia, onde acreditam cabalmente que o mundo foi criado por um gigante de três cabeças, ou que o movimento das estrelas é controlado a partir do fígado de um elefante selvagem?
E, mesmo assim, dentro deste remendo de civilização onde, sabe o céu a custo de quantas lágrimas e sangue, qualquer um com mais de doze anos não precisa mais acreditar em fadas ou que Causas Primárias residem em objetos mortais e finitos; mesmo aqui muitos ainda sentem falta daquela desordem, quando toda paixão gozava de êxtase libertino. César foge a seu campo de caça, abatido pelo tédio; na periferia da Capital, a Sociedade cresce freneticamente, corrompida por sedas e perfumes, amolecida pelo açú
car e água quente, insolente por causa dos teatros e escravos atraentes, e por toda parte (esta província inclusa) novos profetas brotam todo dia para declamar o velho canto bárbaro.
Tentei de tudo. Proibi a venda de cristais e tabuleiros ouija; levantei impostos violentos sobre o carteado; as cortes têm o poder de condenar alquimistas ao trabalho ingrato das minas; é crime previsto por lei arranjar briga ou sequer incitá-las. Mas nada teve efeito duradouro. Como posso esperar que as massas mostrem sensibilidade quando, por exemplo, até onde sei, o capitão de minha guarda carrega um amuleto contra o Olho Malvado, e o mercador mais rico da urbe consulta um médium sobre toda e qualquer transação econômica?
As leis são inúteis contra a ardilosa e submissa procissão que entoa dia sim, dia não destes tetos sob minha proteção: "Meu Deus, afastai a justiça e a verdade pois não podemos compreendê-las, não as queremos. A Eternidade nos arrasta, entedia. Deixai Vossos céus e descei a nossa terra de clepsidras e barracos. Tornai-vos nosso tio. Cuidai do Bebê, diverti o Vovô, levai a Madame à Ópera, ajudai Tiaguinho com a lição de casa, apresentai Muriel a um marinheiro bonitão. Sede interessante e fraco como nós, e vos amaremos como amamos a nós mesmos."
A Razão agora é inútil, e mesmo o Compromisso Poético não mais funciona, todos aqueles contos de fadas nos quais Zeus, fantasiando-se de cisne ou boi ou chuva de ouro ou sabe-se-lá-o-quê, deitava-se com uma garota qualquer e paria um herói. O Público tornou-se sofisticado demais; consegue detectar, sob todas essas metáforas charmosas e símbolos, a rígida ordem: "Sê e age heroicamente"; por trás do mito da origem divina, sente a verdadeira excelência humana tentando afastar sua própria mediocridade. Daí, com um grito de raiva, joga a Poesia ladeira abaixo e clama pela Profecia. "Sua irmã acabou de me ofender. Eu pedi por um Deus que fosse o mais parecido possível comigo. Que interesse eu tenho num Deus cuja divindade é fazer coisas difíceis que eu não posso fazer, ou falar coisas inteligentes que eu não consigo entender? O Deus que eu quero e pretendo conseguir deve ser alguém que eu posso reconhecer logo sem ter que esperar sentado ele dizer ou fazer alguma coisa. Não pode ter nada extraordinário nele. Prod
uz ele de uma vez, vai. Cansei de esperar."
Hoje de manhã, a julgar pela aparência dos três que vieram me consultar com um sorriso extático em seus rostos acadêmicos, o trabalho é findo. "Deus nasceu", clamaram, "vimo-lo nós mesmos. O Mundo está salvo. Nada mais importa."
Não precisa de muita psicologia para compreender que este rumor, se não for abafado imediatamente, será capaz de infectar todo o Império em poucos anos, e não é preciso ser profeta para predizer as consequências caso isso aconteça.
A Razão será substituída pela Revelação. No lugar da Lei Racional, isto é, de verdades objetivas, as mesmas para todos, e disponíveis a qualquer um que se submeta à disciplina intelectual necessária; o Conhecimento degenerar-se-á num conjunto de retalhos, visões subjetivas - espasmos no plexo solar induzidos por subnutrição, imagens angelicais geradas por febres e drogas, avisos oníricos inspirados pelo som das cachoeiras. Verdadeiras cosmogonias serão sistematizadas a partir de algum resentim
ento pessoal esquecido, grandes épicos escritos em linguagens particulares, os garranchos de moleques rivalizando as maiores obras-primas.
O Idealismo será substituído pelo Materialismo. A Priapo será suficiente mudar-se para um outro endereço e mudar seu nome para Eros, tornando-se assim o queridinho das cinquentonas. A vida pós-morte será um banquete onde todos os convidados contam vinte anos. Afastada da velha e bastante ordinária válvula de escape do patriotismo e orgulho familiar ou civil, a ânsia das Massas materialistas por algum Ídolo vísivel que possam venerar desembocará em canais totalmente anti-sociais, e educação nenhuma poderá remediá-los. Honras divinas serão oferecidas a bules de prata, buracos vazios na terra, nomes em mapas, bichos de estimação, moinhos em ruínas, e até, em casos extremos que se tornarão cada vez mais comuns, dores de cabeça, ou tumores malignos, ou às quatro da tarde.
A Justiça será substituída pela Piedade como a virtude cardinal humana, e desaparecerá todo temor de castigo. Qualquer marginal vai se vangloriar: "Eu pequei tanto que Deus teve que descer em pessoa pra me salvar aqui em baixo. Devo ser o capeta em pessoa." Qualquer malandro vai argumentar: "Gosto de cometer crimes. Deus gosta de perdoá-los. Que ordem bacana é essa do mundo!
" E a ambição de qualquer jovem soldado será assegurar a penitência em seu leito de morte. A Nova Aristocracia será formada exclusivamente por ermitões, vagabundos e inválidos. O Diamante Bruto, a Puta Ninfomaníaca, o bandido que ama sua mãe, a garota epiléptica que se dá bem com animais, estes serão os heróis e heroínas da Nova Tragédia, agora que o general, o político, e o filósofo se revelam os patetas de qualquer farsa ou sátira.
Naturalmente, não podemos deixar que isso aconteça. A civilização deve ser salva mesmo às custas de chamar os militares, o que é, suponho eu, o caso. Quanta complicação.
Por que é que a civilização sempre acaba por chamar esses dedetizadores profissionais, aos quais não importa se é Pitágoras ou um lunático homicida que foram instruídos a exterminar. Ó vida, Essa criança maldita não podia ter nascido noutro lugar? O povo não pode ter bom senso? Por quê? Não quero ser injusto. Por que não conseguem enxergar que a noção de um Deus finito é absurda? Porque é. E imagine, hipoteticamente, que não seja, que a ladainha é verdade, que essa criança é de alguma maneira inexplicável tanto Deus quanto Homem, que ela cresce, vive, e morre, sem cometer um único pecado? Isso melhoraria algo na vida? Pelo contrário, iria torná-la muito, muito pior. Pois só poderia significar uma coisa: uma vez mostrado como, Deus esperaria que cada homem, não importa sua fortuna, levasse uma vida sem pecados na carne e na terra. Aí que a raça humana mergulharia em loucura e desespero. E eis que me parece que, neste momento, Deus me deu o poder de destruí-Lo. Eu recuso minha inclusão nessa história. Ele não poderia pregar uma piada tão infame e horrível. Por que ele não poderia gostar de mim? Trabalhei duro como um escravo. Pergunte a quem quiser. Leio toda a correspondência oficial, uma por uma. Tomei aulas de retórica. Quase nunca aceitei subornos. Como Ele ousa permitir que eu tome tal decisão? Tentei ser bom. Escovo meus dentes toda noite. Não transo faz um mês. Eu contesto. Sou um liberal. Quero que todos sejam felizes. Quisera eu nunca ter nascido.

II
[SOLDADOS]

Quando a Guerra dos Sexos acabou com a chacina das Vovós,
Encontraram um bebê de solteira sufocando sob as velhas;
Alguém o chamou de Jorge e aí foi o fim da história:
Arrastaram ele pros Milicos.
Jorge, seu velho moleque,
Como foi virar Milico?

No Reduto da Razão desertou no seu cavalinho-de-pau
E viveu com a fadinha, até que se cansou de chutá-la por aí;
Esmagou suas lentes e roubou suas tabuinhas e o poncho,
E voltou correndo pros Milicos.
Jorge, seu velho folgado,
Como foi virar Milico?

Antes da Dieta do Açúcar ele usava navalhas

E logo foi embora, alérgico aos grelinhos;
Descobriu ele mesmo uma cura, mas ninguém queria patentear,
Então ele voltou pros Milicos.
Jorge, seu velho malandro,
Como foi virar Milico?

Quando as Cruzadas dos Vícios acabaram foi convocado por uns Muscovitas
Querendo vender desodorantes pros Esquimós;
Foi tomado por uma baita gripe e condenado às minas de uísque,
Mas deu um jeito de voltar pros Milicos.
Jorge, seu velho Imperador,
Como foi virar Milico?
Desde que assinaram a Paz com a Honra ele fica aí na dele;
Mas, ops, aí vem Sua Preguiça, abotoando o uniforme;
Bem na hora de massacrar os Inocentes;
Voltou pra casa, com seus Milicos.
Jorge, seu velho matador,
Te saúdam os Milicos.

III
[RAQUEL]

Na Esquerda cães sorridentes, perigando o precipício da solitude, fundo demais para se encher de rosas.
Na Direita ovelhas sensíveis, sobreatônitas ao alarde no qual não crescerão so
nhos.
No meio deste despercício esmo de loucura perde-se um garoto, falando de Há Muito Tempo Atrás no idioma das chagas.
Amanhã, talvez, ele encontrará ele no Céu.
Mas cá torna a Tristeza seu silêncio - não nesta direção, tampouco naquela, nem por qualquer motivo.
E sua frieza agora é a terra sempre.


* * * * *

§3.
A.D. VIII KAL. OCT. (ou, o Vinte-e-três de Setembro).

V. Augusto nasceu em 23 de Setembro de 63 a.C., a saber, durante o consulado de Marco Túlio Cícero e Caio Antônio, pouco antes do pôr-do-sol, na rua das Cabeças de Gado no Palatino, onde hoje pode-se ver um oratório fundado após sua morte. Conforme consta nos atos do Senado, quando um jovem de família patrícia chamado Caio Letório, ao clamar ante os senadores leniência frente a uma acusação adultério, apelou não apenas à sua idade e integridade, como também alegou ter posse do próprio solo onde o Divino Augusto veio ao mundo, como se fosse de lá o guardião, e afirmou também que Augusto era de certa maneira seu deus particular e o favorecia; doravante, o Senado votou a sacralização daquela parte da casa. VI. Sua enfermaria está aberta a visitações ainda hoje, nos subúrbios de uma vila onde morava sua família, perto de Velitrae; lugar assaz modesto, quase uma despensa. Se ele nasceu lá, é o que afama nos arredores. Fato é que ninguém ousa entrar no quarto a não ser se impelido pela necessidade e devoção profunda pois, segundo uma velha lenda, quem o fizesse seria consumido por grande horror e medo, e, à época, tal boato logo foi confirmado: certa feita, um novo proprietário resolveu ir lá dormir, seja por mero acaso ou a fim de atestar a veracidade do caso. Eis que, após poucas horas de sono, foi expelido por algum tipo de força súbita e desconhecida, sendo depois encontrado semi-consciente, junto com seu cobertor, à porta da casa. VII. Ainda bebê, foi dado a Augusto o sobrenome de Thurius, em memória do local onde nasceram seus avós, ou ainda porque, recém-nascido o imperador, seu pai Otávio suprimiu uma revolta de escravos na região de Thurii. Posso certificar que seu sobrenome era Thurinus pois, quando garoto, tinha eu uma velha estátuazinha em bronze com este epíteto cravado em letras de ferro quase apagadas pela idade; então dei-a ao imperador, que hoje o guarda zelosamente em seu quarto com os outros Lares¹. Mas geralmente ele era chamado de Thurinus de maneira ofensiva, como podemos ler nas cartas de Marco Antônio; Augusto, por sua vez, nada mais replicava além de não entender porque seu antigo nome era usado tão insistentemente para injuriá-lo. Mais tarde assumiu o nome de Caio César e, após, de Augusto; o primeiro atendendo ao testamento de seu avô, o outro segundo sugestão de Munácio Plâncio. Houve alguns que argumentaram em favor de chamá-lo por Rômulo; de fato, ele era um tipo de segundo fundador de Roma; no entanto, prevaleceu que fosse chamado de Augusto, sobrenome não apenas inédito como mais digno, pois "augustos" são chamados os locais sagrados, nos quais são consacrados os agouros, seja pela palavra auctus [aumento] ou pela expressão auium gestu gustuue [segundo o mover ou comer das aves]², como ensina Ênio neste verso:

quando em agouro augusto foi Roma fundada.

*

V. natus est Augustus M. Tullio Cicerone C. Antonio css. VIII. Kal. Octob. paulo ante solis exortum, regione Palati ad Capita bubula, ubi nunc sacrarium habet, aliquanto post quam excessit constitutum. nam ut senatus actis continetur, cum C. Laetorius, adulescens patricii generis, in deprecanda grauiore adulterii poena praeter aetatem atque natales hoc quoque patribus conscriptis allegaret, esse possessorem ac uelut aedituum soli, quod primum Diuus Augustus nascens attigisset, peteretque donari quasi proprio suo ac peculiari deo, decretum est ut ea pars domus consecraretur. VI. nutrimentorum eius ostenditur adhuc locus in auito suburbano iuxta Velitras permodicus et cellae penuariae instar, tenetque uinicitatem opinio tamquam et natus ibi sit. huc introire nisi necessario et caste religio est, concepta opinione ueteri, quasi temere adeuntibus horror quidam et metus obiciatur, sed et mox confirmata. nam cum possessor uillae nouus seu forte seu temptandi causa cubitum se eo contulisset, euenit ut post paucissimas noctis horas exturbatus inde subita ui et incerta paene semianimis cum strato simul ante fores inueniretur. VII. Infanti cognomen Thurino inditum est, in memoriam maiorum originis, uel quod regione Thurina recens eo nato pater Octauius aduersus fugitiuos rem prospere gesserat. Thurinum cognominatum satis certa probatione tradiderim nactus puerilem imagunculam eius aeream ueterem ferreis et paene iam exolescentibus litteris hoc nomine inscriptam, quae dono a me principi data inter cubiculi Lares colitur. sed et a M. Antonio in epistulis per contumeliam saepe Thurinus appellatur et ipse nihil amplius quam mirari se rescribit pro obprobrio sibi prius nomen obici. postea Gai Caesaris et deinde Augusti cognomen assumpsit, alterum testamento maioris auunculi, alterum Munati Planci sententia, cum quibusdam censentibus Romulum appellari oportere quasi et ipsum conditorem urbis, praeualuisset, ut Augustus potius uocaretur, non tantum nouo sed etiam ampliore cognomine, quod loca quoque religiosa et in quibus augurato quid consecratur augusta dicantur, ab auctu uel ab auium gestu gustuue, sicut etiam Ennius docet scribens:

AVGVSTO AVGVRIO POSTQVAM INCLVTA ROMA CONDITA EST.


(1) Eram os Lares deuses domiciliares, zelosos pelo ambiente doméstico; cada família, casa, indivíduo, tinha o seu ou muitos. O costume perdurou pela Idade Média e chegou até nós nas estátuazinhas de santos que adornam os lares das famílias cristãs. O imperador é Adriano.
(2) Os romanos usavam o substantivo avis também para agouro, por inserir grande importância à observação destes seres, em especial à águia, Júpiter animalesco e elo entre o mundo terreno e os céus, cf. alba avis em Tito Lívio. Herodes não está de todo certo.

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A tradução hoje foi tripartite: contou com três excertos, agora pormenorizados em conjunto.
O epigrama 58 do livro quinto dos Epigrammata de Marco Valério Marcial (ca. 38-ca. 102) foi vertido a partir da impressão da Oxoniensis, ed. W. M. Lindsay (Londres, 2007). O estudante de latim encontrará traduções confiáveis via Belle Lettres (H. J. Izaak em 3 vols., 1970) e na Loeb Classical Library (D. R. Shackleton Bailey em 3 vols., 1993); ao diletante, recomendamos a curiosa antologia Epigrams by Martial englished by divers hands (Univ. of California, 1987), hoje esgotada, com E. Pound, A. Pope, John Dryden, e outros vates cujo nome fez a fortuna; o livre de poche dos Épigrammes (Gallimard, 1992), no gálico de Jean Malaplate; e outro livreto em espanhol pela Alianza, o qual não consultei. Alguns epigramas foram traduzidos por João Ângelo Oliva Neto & outros na Poesia Lírica Latina (ed. Maria da Gloria Novak, Martins Fontes, última edição de 2003). Entretanto, aguardamos mais em português do boca do Orco aragonense, e logo teremos - há diversos pesquisadores traduzindo-o neste exato momento - e talvez num futuro próximo o texto integral dos Epigramas será final & dignamente submetido à lusa forja.

Do segundo, parte do oratório natalino For the time being ("Por enquanto"), do britânico W. H. Auden (1907-1973), publicado em 1942. Aos interessados na obra do poeta iorquino recomendamos os Collected Poems (ed. Edward Mendelsom, The Modern Library, 1976). Por aqui, Auden foi contemplado na série Poemas da Companhia das Letras, em trad. de José Paulo Paes e João Moura, Jr.; esgotada. De sua prosa temos alguns ensaios reunidos em dois livros específicos, The dyer's hand e Forewords and Afterwords (ambas publicações da Vintage, 1990), incisivos qual seus poemas. Foi característica de sua escrita a concisão, a argúcia que, sem rodeios ou inversões, calculava a posição das palavras e a construção da sintaxe em todas suas minuciosidades; dom raríssimo, somente se adquire após muito esforço e maturidade por parte dos escritores.
Por terceiro; os três parágrafos recontando o nascimento do Divus Augustus no De Vita Caesarum de Caio Tranquilo Suetônio (ca. 69/75-ca.130), biografista romano e secretário do imperador Adriano, foram vertidos a partir da ed. da Teubner, e cotejados com as traduções de Henri Ailloud & Paul Jal em 3 vols. para as Belles Lettres, no ainda pingue ano de 2003; e a de J. C. Rolfe em 2 vols. para a Loeb Classical Library, nos idos priscos de 1914. Há excelente tradução do poeta Robert Graves, The Twelve Caesars, ainda disponível via Penguin. Em português, temos publicações picotadas, e apenas uma versão integral, que já conta os anos de Príamo e Nestor.

O post de hoje desvenda ao gládio e ao joco os novos caminhos - itinera - que este blog tomará após meses inativo. Há diversos textos a serem revisados, publicados in the time being; entre os quais o Hino de Caedmon, um conto de Ambrose Bierce, um ou outro poema de Charles Bukowski, mais Moby Dick; no entanto, acredito que já me é possível traduzir algo do latim. Suetônio e Tácito são autores os quais pretendo verter na língua íbera; e, quam maximum credulus postero, quiçá Horácio e Ovídio.